Inferno, Castigo proporcional e Cafarnaum

“Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido: Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza” (Mt 11:20, 21).

Lendo essas palavras do Senhor Jesus, me vieram as perguntas:

            – Então, por que Ele não foi até Tiro e Sidom e realizou os mesmos milagres, para o povo daquelas cidades se arrependerem?!
         – Por que Corazim e Betsaida receberam os milagres e Tiro e Sidom não?!
            – Como Deus poderá condenar Tiro e Sidom se Ele não fez tudo o que podia para salvá-las?!

Quando continuei a leitura…
“E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras” (:22),
aí a coisa complicou mais ainda!
              – Como assim “mais rigor” para uns e, consequentemente, menos para outros?!
          – Pelo fato de Deus não ter feito tudo o que podia para salvar alguns, na hora do castigo eles sofrerão menos… mas ainda assim sofrerão?!

Nos versos seguintes,
“Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo” (:23, 24),
se repetem os mesmos problemas, que me fizeram fazer as mesmas perguntas mais uma:
            – Qual o significado de “inferno” nesse contexto?

Claro, evitei criar uma primeira imagem, ou melhor, me basear em qualquer primeira imagem gerada em minha mente, para não interferir na busca pelas respostas que a própria Bíblia me daria! Lhe aconselho a fazer isso com todos os textos aparentemente problemáticos que sua leitura das Escrituras trouxer.

Em Gálatas 4:4 e 5 encontrei a primeira solução de minhas questões: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos”. O tempo da vinda do Messias não seria determinado por um grupo local de pecadores obstinados. Ou seja, embora Deus ame os pecadores e Se submeta muitas vezes e de muitas maneiras a nossa condição e teimosia, o Seu tempo (o mais adequado a todas as pessoas de todas as épocas) é respeitado (se não por nós, pelo Céu!). JAVÉ encarnado, Jesus, não nasceria para tentar salvar Caim e os demais antediluvianos só porque eles não atenderiam outras estratégias divinas! Deus, apesar de dar Sua vida pelos filhos, não é um pai permissivo e refém de Seus próprios filhos. Além disso, qual a garantia de que “Tiro”, “Sidom” e “Sodoma” se arrependeriam e se converteriam verdadeiramente, caso o Cristo aparecesse no tempo delas, uma vez que cada uma rejeitou os enviados por Ele? (Veja o descaso dessas pessoas para com as oportunidades e os juízos divinos: Is 23:15 e 17; Ez 28:2, 7, 8, 21 e 22; Jl 3:4; Gn 13:13, 18:20 e 19:6-9). Um exemplo de arrependimento pontual seguido de retorno às velhas práticas pecaminosas foi Nínive! Essa grande capital assíria aceitou a mensagem do enviado Jonas (Jn 3:5-10), porém mais tarde recebeu a sentença da destruição por meio dos enviados Naum e Sofonias: “Sentença contra Nínive” (Na 1:1 e Sf 2:13). Com o Enviado (Siloé, Jo 9:7), não seria diferente, segundo o que Ele mesmo ensinou “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lc 16:31). O trabalho de mostrar ao pecador o seu erro, convidá-lo e ensiná-lo é do Espírito Santo (Jo 16:8 e 13). E Ele está aqui no mundo antes do pecado (Gn 1:2)! Ninguém poderá alegar, “no Dia do juízo”, que não se converteu por que Jesus não operou milagres em sua época, diante dele ou dela, pois, o Espírito de Deus prega por meio de Seus enviados, opera transformações de caráter (quer maior milagre do que este?!) e oportuniza a salvação até hoje (Ap 22:17)! Portanto, “Tiro”, “Sidom” e “Sodoma” tiveram as mesmas chances sem o Cristo, que “Corazim”, “Betsaida” e “Cafarnaum” com Ele. Deus fez e faz tudo o que um Pai Todo-poderoso poderia realizar para salvar um povo, um pecador. A condenação divina é completamente razoável! Por outro lado, a ideia de sentença proporcional às obras é pregada pelo Senhor Jesus aqui: “no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras” (Mt 21:22). “Aquele servo, porém, que conheceu a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade será punido com muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12:47 e 48). O Juiz está nos informando, assim, que ninguém colherá nem mais nem menos do que escolheu em sua vida, uma clara evidência da brevidade do lago de fogo ou condenação final! (Seria injusto alguém que viveu algumas décadas receber a imortalidade para ficar no fogo eternamente, não acha? Até para um antediluviano que viveu séculos ou um anjo caído com a idade de milênios, isso não estaria certo!). Falando em anjo caído, podemos concluir a presença do ex-Lúcifer em Cafarnaum pela afirmação de Cristo semelhante a de Isaías: “Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo” (Is 14:12-15). Compare o negrito com “Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno”. Mais do que isso – entendemos o significado da palavra “inferno” mencionada em Mateus: “reino dos mortos”, “abismo”, segundo Isaías! No grego e na Bíblia de Jerusalém, no lugar de “inferno” aparece a palavra hades significando literalmente sepultura. Até esse será o destino de Satanás. O inferno eterno ou morte eterna. Um inferno com chamas eternas com gente viva dentro não é bíblico! O ensinamento bíblico sobre a destruição dos pecadores por meio do fogo está contido na expressão “inferno de fogo” ou no grego “gehenna de fogo” (Mt 5:22), “fogo eterno” (Mt 18:8, 25:41 e Jd 7) e “lago de fogo”, note a ideia de efemeridade na palavra lago (Ap 19:20, 20:10, 14 e 15). Jesus não ensinou que os perdidos de Cafarnaum, ao morrer, iriam para o “gehena”, mas para o “hades”! O “gehenna de fogo” (expressão atribuída a Jesus) ou o “lago de fogo” (João) ainda não existem segundo a Bíblia (diferentemente do “hades” que existe desde a morte do justo Abel!). A condenação com fogo existirá previamente na vinda de Cristo, apagando-se em seguida, e finalmente após os mil anos, apagando-se antes de Jesus tocar no monte das Oliveiras (Zc 14:4) e estabelecer a Nova Jerusalém (Ap 21:2). Oxalá não estejamos nós, “no Dia do juízo”, ao lado dos condenados de “Corazim”, “Betsaida”, “Cafarnaum”, “Tiro”, “Sidom” e “Sodoma”, por não havermos nos “arrependido com pano de saco e cinza”. Antes, que o milagre da transformação do caráter, operado pelo Amigo Espírito Santo nos livre do gehenna ainda que durmamos no hades por breve período, esperando a vinda de Deus! (Hendrickson Rogers)                

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