A crise de raiva do rei Saul e a Profecia de Micaías

“No dia seguinte, um espírito maligno, da parte de Deus, se apossou de Saul, que teve uma crise de raiva em casa” (I Sm 18:10). “Vi JAVÉ assentado no seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele, à sua direita e à sua esquerda. Perguntou JAVÉ: Quem enganará a Acabe, para que suba e caia em Ramote-Gileade? Um dizia desta maneira, e outro, de outra. Então, saiu um espírito, e se apresentou diante de JAVÉ, e disse: Eu o enganarei. Perguntou-lhe JAVÉ: Com quê? Respondeu ele: Sairei e serei espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. Disse JAVÉ: Tu o enganarás e ainda prevalecerás; sai e faze-o assim. Eis que JAVÉ pôs o espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas e JAVÉ falou o que é mau contra ti.” (I Rs 22:19-23).  Para boa compreensão destas passagens é necessário ter em mente os seguintes fatos:
I – Tanto anjos bons quanto maus estão sujeitos ao poder de Deus. O próprio poder de que Satanás dispõe lhe é permitido por Deus.
II – Veracidade destaca-se como atributo divino (Nm 23:19), enquanto Satanás é o originador da mentira (Jo 8:44).
III – É difícil, por vezes, transmitir em português o que os escritores bíblicos expressaram em hebraico e grego, por serem línguas com peculiaridades distintas.
Partindo do princípio que a divindade não está imbuída de nenhum espírito maléfico, a lógica determina que nenhum ente espiritual malfazejo integra a Divindade; logo nenhuma personalidade angelical maligna pode emanar de “elohim”, precisamente o termo hebraico ocorrente em I Samuel 18:10. Uma interessante explicação para I Samuel 18:10 é a que fornece o teólogo A. Neves de Mesquita em sua obra “Estudo nos Livros de Samuel”, quando comenta I Samuel 16:14-23. Ele diz: “Deus manda tanto nos espíritos bons como nos maus. Nada escapa do governo divino, e os demônios são usados para perseguir os que estão desviados. O mundo invisível é muito misterioso para nós que só entendemos as coisas de acordo com a vista. Pode-se entender pelo texto que Deus tanto mandou um espírito mau para Saul, como o permitiu. Tanto vale uma coisa com outra”, diz o teólogo. E ele continua: “Em Jó 1:7, Deus dialoga com Satanás a respeito das atividades deste na Terra. Parece estranho, mas não é. Deus tem sob Seu domínio anjos e demônios, como tem homens, e usa-os no Seu governo providencial, do modo que quer”, finaliza. Em alguns casos é tarefa árdua distinguir nos escritores do Antigo Testamento o que é executado por Deus e o que é por Ele permitido. Lembre-se do endurecimento do coração de Faraó “da parte de Deus”! Um outro abalizado comentário bíblico afirma: “Na linguagem bíblica, muitos atos são atribuídos a Deus, não com a idéia de que Deus os executa, mas de que em Sua onipotência e onisciência, não os impede” (SDABC, vol. 4, pág. 647). “Um espírito mau” pode ser entendido: um anjo bom autorizado ou ordenado à prática de um ato mau. Por exemplo: o anjo que sai para ferir mortalmente os primogênitos dos egípcios pertencia às potestades benéficas, comissionado a ceifar vidas humanas, para o cumprimento da justiça de Deus, foi em certo sentido um “anjo mau” da parte de Deus. É útil salientar que Deus não necessita de anjos maus para executar seus juízos, para infringir punição aos iníquos. Assim como Satanás se transforma em anjo de luz para o exercício de ações criminosas, e seus ministros se transfiguram em agentes justiceiros, para a consecução de resultados nefastos, pode ser que as falanges celestiais divinas sejam figuradamente denominadas maléficas, quando por determinação de Jeová desempenham em dado momento uma missão catastrófica como a morte fulminante dos 185 mil inimigos de Israel acarretada por um só anjo, da parte de Deus (II Reis 19:35)! Adão Clark comenta sobre I Reis 22:23 – “Ele permitiu ou tolerou que um espírito mentiroso influenciasse Seus profetas. É indispensável novamente lembrar ao leitor que as Escrituras reiteradamente representam a Deus como o autor daquilo que Ele, no desenrolar de Sua providência, apenas permite ou tolera que ocorra. Nada pode ser feito no Céu, na Terra ou no Inferno, que não seja por Sua atividade imediata ou por Sua permissão”. Muitas vezes anjos bons são solicitados a fazer o mal para a obtenção do bem. Similarmente anjos maus operam o bem para a aquisição do mal, em inumeráveis circunstâncias… De acordo com a narrativa às vezes pode ser trabalhoso descobrir qual das situações ocorreu. (Perguntas & Respostas, v. 1, p. 15)

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