“Eu, porém, vos digo” e o “olho por olho, dente por dente” (parte 1)

“Ouvistes
que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que
te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar
contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a
andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao
que deseja que lhe emprestes” (Mt 5:38-42).
Vamos
construir esta pesquisa bíblica permeando e respondendo as seguintes
indagações:
(I)    
      É absolutamente errado revidar?
(II)        Agir vingativamente é igual a ou
diferente de reagir em autodefesa?
(III)          
Emprestar
é uma obrigação do cristão?
(IV)          O
cristão deve se submeter a toda e qualquer coação enquanto não lhe for exigido desobedecer
à Deus?
Três
textos do Antigo Testamento contêm a famosa expressão mencionada pelo Mestre
divino. Vamos analisar seus contextos:
1°)
Êxodo 21:1,12,14-16,18,19, 22-25. “São estes os estatutos que lhes proporás:
Quem ferir a outro, de modo que este morra, também será morto. Se alguém vier
maliciosamente contra o próximo, matando-o à traição, tirá-lo-ás até mesmo do
meu altar, para que morra. Quem ferir seu pai ou sua mãe será morto. O que
raptar alguém e o vender, ou for achado na sua mão, será morto. Se dois
brigarem, ferindo um ao outro com pedra ou com o punho, e o ferido não morrer,
mas cair de cama; se ele tornar a levantar-se e andar fora, apoiado ao seu
bordão, então, será absolvido aquele que o feriu; somente lhe pagará o tempo
que perdeu e o fará curar-se totalmente. Se homens brigarem, e ferirem mulher
grávida, e forem causa de que aborte, porém sem maior dano, aquele que feriu
será obrigado a indenizar segundo o que lhe exigir o marido da mulher; e pagará
como os juízes lhe determinarem. Mas, se houver dano grave, então, darás vida
por vida, olho por olho, dente por dente,
mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento,
golpe por golpe”.
2°)
Levítico 24:10,11,13,15,16,17,19,20,22.
“Apareceu entre os filhos de Israel o filho de uma israelita, o qual era filho
de um egípcio; o filho da israelita e certo homem israelita contenderam no
arraial. Então, o filho da mulher israelita blasfemou o nome de JAVÉ e o
amaldiçoou, pelo que o trouxeram a Moisés. Disse JAVÉ a Moisés: Dirás aos
filhos de Israel: Qualquer que amaldiçoar o seu Deus levará sobre si o seu
pecado. Aquele que blasfemar o nome de JAVÉ será morto; toda a congregação o
apedrejará; tanto o estrangeiro como o natural, blasfemando o nome de JAVÉ,
será morto. Quem matar alguém será morto. Se alguém causar defeito em seu
próximo, como ele fez, assim lhe será feito: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente; como ele
tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará. Uma e a mesma lei havereis,
tanto para o estrangeiro como para o natural; pois eu sou JAVÉ, vosso Deus”.
3°)
Deuteronômio 19:14-21. “Não mudes os
marcos do teu próximo, que os antigos fixaram na tua herança, na terra que JAVÉ,
teu Deus, te dá para a possuíres. Uma só testemunha não se levantará contra
alguém por qualquer iniqüidade ou por qualquer pecado, seja qual for que
cometer; pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato.
Quando se levantar testemunha falsa contra alguém, para o acusar de algum
transvio, então, os dois homens que tiverem a demanda se apresentarão perante JAVÉ,
diante dos sacerdotes e dos juízes que houver naqueles dias. Os juízes
indagarão bem; se a testemunha for falsa e tiver testemunhado falsamente contra
seu irmão, far-lhe-eis como cuidou fazer a seu irmão; e, assim, exterminarás o
mal do meio de ti; para que os que ficarem o ouçam, e temam, e nunca mais
tornem a fazer semelhante mal no meio de ti. Não o olharás com piedade: vida
por vida, olho por olho, dente por dente,
mão por mão, pé por pé”.
Perceba
que os dois primeiros textos (Êx 21:24 e Lv 24:20) têm como situação principal
uma briga ou um ataque, enquanto o terceiro texto (Dt 19:21), um falso
testemunho. Não há perda de significados se resumirmos a essência dos três com
a afirmação “far-lhe-eis como cuidou fazer a seu irmão; e, assim, exterminarás
o mal do meio de ti; para que os que ficarem o ouçam, e temam, e nunca mais
tornem a fazer semelhante mal no meio de ti. Não o olharás com piedade: vida
por vida, olho por olho, dente por dente,
mão por mão, pé por pé” (Dt 19:19-21)! No entanto, essa legislação civil
(geral) não anula nem sequer altera as responsabilidades individuais (os Dez
Mandamentos), as quais podem tornar uma situação aparentemente comum, num caso
especial.
Exemplos:
   a)    “Se um ladrão for apanhado
roubando de noite uma casa e for morto, quem o matar não será culpado pela
morte do ladrão. Mas, se isso acontecer durante o dia, ele será culpado de
assassinato” (Êx 22:2,3, NTLH). O ladrão não cumpriu com sua obrigação de não
roubar (Êx 20:15) e isto altera a responsabilidade de sua vítima com relação a
Lei que ordena não matar (Êx 20:13)! Por outro lado, o mesmo caso sendo durante
o dia pode culpar tanto o ladrão (pela tentativa de furto) como a vítima (por homicídio
culposo ou doloso). (Não há uma inversão de culpas do tipo o culpado se torna inocente e o inocente se torna culpado. Mas,
segundo a Bíblia há compartilhamento de culpas: o culpado se torna vítima, embora permaneça culpado, e a vítima se torna culpada, embora
permaneça sendo vítima!). Também podemos cogitar o seguinte: e se à noite,
mesmo com o ladrão dominado, sem ameaça e ele ainda suplicando por
misericórdia, o dono da casa matá-lo? Perante a letra da legislação geral o dono da casa é inocente, mas e para o
Autor (e Fiscalizador) da Lei? E ainda, mesmo durante o dia, imagine que o
ladrão intentou tirar a vida de alguém de dentro de uma residência (ou naquela
época, numa tenda), mas o dono da casa conseguiu impedi-lo e, mesmo
esforçando-se por evitar, acabou tirando a vida do malfeitor! Perante a letra da Lei (ambos os Dez Mandamentos e
a legislação civil) o dono da casa é culpado; contudo, para o Legislador,
certamente, ele é inocentável.
  b)   Contemple o Senhor Jesus (o mesmo
JAVÉ do AT) apresentando raciocínio
semelhante na seguinte situação: “Se você receber a capa do seu vizinho como
garantia de uma dívida, devolva-a antes que anoiteça. Pois a capa é a única
coisa que ele tem com que se cobrir quando dorme, para esquentar o corpo. Sem a
capa, ele não tem nada com que se cobrir. Quando ele clamar a mim pedindo
ajuda, eu o atenderei, pois sou bondoso” (Êx 22:26,27, NTLH); não obstante, “ao
que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa” (Mt
5:40). Embora o pobre (ou a vítima de roubo) tenha o direito legal de reivindicar sua capa (a parte
mais protetora e isolante de suas vestes), como filhos de Deus, também temos o
dever de ser mais sábios que nossos inimigos (Sl 119:98-100) e de “clamar” por
Ele e confiar nEle! Jesus revela como a letra
da Lei pode ser mau usada, bem como nos ensina os múltiplos sentidos harmônicos
presentes na Lei. É para os que se interessam em conhecer os sentidos da
Palavra de Deus que Ele prometeu: “Quando ele clamar a mim pedindo ajuda, eu o
atenderei, pois sou bondoso”! Para eles, esta é a parte mais importante da Lei –
seu Autor! Para eles, a prioridade é informar a Deus o acontecido e crer na Sua
direção e no Seu cuidado. O reivindicar direitos, ainda que legais, só é
genuinamente legal quando dentro
deste contexto de relacionamento com o Legislador e submissão a Ele! Buscar a
ajuda de Jesus sem querer conhecê-Lo não é direito de ninguém.
“Não
resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe
também a outra” (Mt 5:39). Se entendermos essa ordem do Mestre como sendo
literal apenas, faremos a Palavra de Deus dizer o que ela não intencionou e até
contradizer-se; por exemplo, a Bíblia também ordena “resisti ao diabo, e ele
fugirá de vós” (Tg 4:7)! Você vai me dizer que o “diabo” não é “perverso”?
Outro exemplo: “Houve peleja no céu.
Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e
seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga
serpente, que se chama diabo e Satanás” (Ap 12:7-9). Imagine se o comandante
Jesus (Miguel), não resistisse o (então) perverso Lucifer, lá no Céu, antes
desse a ele a outra face… Novamente os múltiplos sentidos da Palavra estão em
ação! Vamos entendê-los pela própria Palavra.
A
ordem de Cristo é melhor expressa pela Nova Tradução da Linguagem de Hoje: “não
se vinguem dos que fazem mal a vocês. Se alguém lhe der um tapa na cara, vire o
outro lado para ele bater também” (Mt 5:39)! Revidar vingativamente é tão
errado hoje quanto nos tempos de Cristo quanto no Antigo Testamento quanto na
época de Lúcifer no Céu quanto antes dele! E a “peleja” celestial e os
“estatutos” do AT não são exemplos de vingança, embora sejam exemplos de
revide. O revidar faz parte das leis naturais criadas por Deus. Revidar ou
reagir à uma ação não é necessariamente pecado, principalmente quando não é
vingativo. Deus, por exemplo, reagiu ao “ladrão” Lúcifer lá no Céu, em plena
luz do dia eterno que Sua glória produz, mas não Se vingou (no sentido
pecaminoso da palavra) nem o destruiu, seguindo Êx 22:3. Sendo assim, a
“vingança de Deus” (Dt 32:35, Rm 12:19 e Hb 10:30) e Sua “retribuição” ocorrem
no sentido de castigo, punição e extermínio do mal, mas nunca como desforra
para reparar danos sofridos (Deus não pode sofrer dano algum!). Esse sentido estava presente também no AT,
como vimos: “far-lhe-eis como cuidou fazer a seu irmão; e, assim, exterminarás
o mal do meio de ti; para que os que ficarem o ouçam, e temam, e nunca mais
tornem a fazer semelhante mal no meio de ti. Não o olharás com piedade: vida
por vida, olho por olho, dente por dente,
mão por mão, pé por pé” (Dt 19:19-21). Ou seja, o olho do homem briguento seria
furado não por desforra, mas por punição proporcional ao que ele fez no olho de
sua vítima! E antes disso “os juízes” (Dt 19:18) deveriam analisar o caso e dar
o veredito nesse sentido. O revide
autorizado por JAVÉ nunca teve a ver com vingança cruel e banalização da
violência. Ele era regrado e objetivava o “extermínio do mal” e não a repetição
perpétua deste, o que é resultado da desforra sem lei em todo o mundo!
A
intenção conta muito para Deus. Não é
tudo, mas é sim levada em consideração pelo supremo Juiz. “far-lhe-eis como
cuidou fazer a seu irmão e, assim, exterminarás o mal do meio de ti” (Dt 19:19).
           
              a)   Por isso que Ele mesmo criou as 6
cidades-refúgio para os que cometeram crimes não dolosos (sem a intenção de matar), confira Nm 35:9-15.
                b)      Por isso, a intenção sendo ou não vista pelos juízes da Terra, é claramente
percebida, avaliada e vingada ou
retribuída por Ele em Seu tribunal celestial, confira Jr 17:10, Êx 32:34, Jr
51:36 e II Ts 1:8. A letra da Lei não sonda intenções,
conquanto ensine boas intenções! E os magistrados, mesmo os seguidores da Lei, podem
não descobrir a verdadeira intenção do réu, embora as ações deste pareçam
apontar para ela!
                c)      Por isso também que JAVÉ em carne
exaltou o revide com amor e tolerância (“a qualquer que te ferir na face
direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a
túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai
com ele duas”), pois, isto daria uma segunda chance ao malfeitor (ou o
condenaria de vez, cf. Mt 11:6), bem como confirmaria o caráter daquele que Lhe
obedece na direção do caráter misericordioso de Deus (Mt 5:45)! Mesmo como JAVÉ,
no AT, Jesus incentivou o mesmo ao povo de Israel: “não atentarás contra a vida
do teu próximo. Eu sou JAVÉ. Não aborrecerás teu irmão no teu íntimo [intenção]; mas repreenderás o teu próximo e, por
causa dele, não levarás sobre ti pecado. Não te vingarás, nem guardarás ira
contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou JAVÉ”
(Lv 19:16-18). Hendrickson Rogers 
      
      Todo este estudo está disponível num pequeno livro em PDF AQUI (clique).

E ainda aqui no Blog na seguinte sequência de capítulos:

   Capítulo 7: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.                          


                                     

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