A mulher adúltera de João 8 – segundo Francisco Gonçalves

Por
uma questão de respeito à veracidade histórica dos relatos bíblicos, necessário
se faz que se revise a difundida versão de que Maria Madalena e a personagem
conhecida como “mulher adúltera” sejam a mesma pessoa. Nos evangelhos
e nos escritos de Ellen White, nada há que dê substância a essa teoria.
Algumas
citações, à guisa de introdução: “O significado literal de uma palavra ou
expressão somente pode ser determinado por um exame da cultura do povo que a
empregou. […] A revelação divina está inserida num contexto histórico. […]
Temos que recorrer à História. […] Todas as interpretações que não se
harmonizarem com este critério devem ser rejeitadas ou, pelo menos, olhadas com
suspeita” (Protestant Biblical Interpretations). “… O
objetivo da interpretação é obter o sentido exato dado pela pessoa que escreveu
o documento. Para esta pessoa, suas palavras não são ambíguas; pois ela
atribuiu um significado definido a tais palavras, e a tarefa daquele que
interpreta é descobrir qual é esse significado” (Wigmone on Evidence). “…
Todos os teólogos honestos, quer liberais, quer ortodoxos, devem tratar cada
palavra com toda a seriedade, se é que desejam considerar as Escrituras de maneira
justa” (Revelation ofthe Bible). “No momento em que o
estudante consegue captar mentalmente aquilo que o autor ou autores dos livros
bíblicos tinham em mente, ele terá interpretado o pensamento das Escrituras. Se
ele acrescentar qualquer coisa de seu próprio raciocínio, deixará de ser
exegese” (International Standard Bible Encyclopedia). “Na lei
das evidências, uma inferência é um fato racionalmente deduzido de outro fato.
É uma consequência lógica. É um processo de raciocínio. É tirar uma conclusão
de um fato ou premissa estabelecidos. É a dedução de uma proposição, a partir
de outra. É uma conclusão retirada de evidências. Um fato, ou proposição,
embora não tenha sido apresentada expressamente, é suficiente para ter força de
lei. Este princípio é adotado pelas cortes de justiça” {Ecyclopedia
Britannica e BacksLaw Dictionary)
. [Citações coligidas do livreto Divórcio
e Novo Casamento,
de Guy Duty, Editora Betânia].
Partamos
da premissa de que toda e qualquer tese precisa ter base exclusivamente no que
está revelado. O que ultrapassa a isso são ilações, fantasias, romances,
ficções, sem nenhum apoio na revelação. E o que se encontra revelado é que
Maria Madalena e a assim chamada “mulher adúltera” são duas pessoas
com identidades distintas, com histórias similares, mas não iguais. Um fato
relevante a ser considerado é que nenhuma concordância bíblica relaciona os
textos referentes a cada uma delas, identificando-as como sendo uma mesma
pessoa! A rigor, é preciso registrar-se que os estudiosos bíblicos, em geral,
identificam três personagens distintas: a “mulher adúltera”
“Maria Madalena” e “Maria de Betânia” Nós, adventistas,
acolhemos a versão de que Maria Madalena fosse irmã de Lázaro e Marta através dos
escritos de Ellen White. No livro denominacional Bible Biographies – New
Testament,
v. 2, p. 23-30 (Ellen G. White, compilado por Walter T. Rea), o
autor admite que nada há registrado, na Bíblia e nos escritos de Ellen White,
que possa relacionar a “mulher adúltera” com Maria Madalena, mas que
de igual modo, em sua opinião, não há nada que possa contradizer claramente
essa tese. O SDABC (Comentário Bíblico Adventista) assume igual posição
indefinida.
Atenhamo-nos exclusiva e criteriosamente ao que está
escrito: O evangelista João e Ellen White mencionam Lázaro, Maria e Marta como
sendo três irmãos que viviam juntos em Betânia, em cuja casa Jesus gostava de
Se hospedar. Todas as evidências apontam para o fato de que os três fossem
solteiros, pois em nenhum momento se registra a presença de alguma esposa ou
marido, mesmo nos dramáticos acontecimentos envolvendo a doença, morte e
ressurreição de Lázaro (Jo 11; O Desejado de Todas as Nações, capítulo
“Lázaro, Sai Para Fora”), ou no jantar em casa de seu tio Simão,
quando Marta preparou os alimentos e serviu aos convidados, Maria ungiu a Jesus
e Lázaro estava presente, após ser ressuscitado, o que atraiu a curiosidade de
muitos, que foram a Betânia não para ver a Jesus, mas para ver a Lázaro (Jo 12;
O Desejado de Todas as Nações, capítulo “O Banquete em Casa de
Simão”). (É bom ressaltar que esse jantar provavelmente ocorreu na própria
semana da crucifixão de Jesus ou na semana anterior, pois foi Lázaro quem
conduziu o jumentinho no domingo, na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém,
segundo revela Ellen White no livro O Desejado de Todas as Nações.) Maria,
portanto, também devia ser solteira. Ela, particularmente, teria um forte
motivo para não ter se casado: violentada por seu tio Simão, desonrada,
abandonou sua casa, indo morar em Magdala, onde teria se tornado prostituta,
pois nenhum homem da época se casaria com uma moça que não fosse mais virgem.
A essa altura, seria bom ressaltar que, pela cultura
judaica, além de se permitir que um homem tivesse várias mulheres, ele poderia,
ainda, relacionar-se livremente com prostitutas. Judá, viúvo, teve relações
sexuais com sua nora Tamar, que se disfarçara de prostituta. Ao saber que ela
estava grávida, ordenou que fosse apedrejada. Confrontado, porém, com a revelação
de que ele era o pai da criança, assumiu-a como esposa, embora nunca mais tenha
tido relacionamento sexual com ela (Gn 38:11-26). Pelas leis judaicas, o
“correto” seria que ambos fossem apedrejados. (Maravilhosa graça
perdoadora divina! Jesus é descendente de Judá, através desse relacionamento
ilegítimo!) Confirmando a mentalidade da época, Salomão declara: “Por uma
prostituta o máximo que se paga é um pedaço de pão; mas a adúltera [casada!]
anda à caça de vida, e vida preciosa” (Pv 6:26). [Leia ainda Ez 16:30-33.]
Não encontramos nenhum texto bíblico que ordene o apedrejamento de prostitutas.
Por incrível que possa parecer, os israelitas chegaram ao cúmulo de acolher até
“prostitutos-cultuais” em seus cultos de adoração a Deus! (IRe 14:24).
O apóstolo Paulo “pôs ordem na casa” ao proibir os cristãos de manter
relações com meretrizes (ICo 6:15-20). O único registro bíblico sobre a
“mulher adúltera” encontra-se no sucinto relato de João 8:3-11.
Conclui-se que ela era casada, pelo fato de que, legalmente, essa era a
condição civil para que ela fosse considera adúltera, sendo que o homem com
quem se relacionara também devia ser apedrejado (Lv 20:10; Dt 22:22). No livro
O Desejado de Todas as Nações, p. 461, Ellen White ressalta: “Com
toda a sua professada reverência pela lei, esses rabis, ao trazerem acusação
contra a mulher, estavam desatendendo às exigências da mesma. Era dever do
marido mover ação contra ela, e as partes culpadas deviam ser igualmente
punidas. A ação dos julgadores era de todo carecida de autorização.” Porque
o evangelista, inspirado pelo Espírito Santo, preferiu manter anônima sua
identidade, não sabemos. O certo é que nem mesmo Ellen White recebeu essa
revelação. Pode até ser que ela fosse “a outra Maria” (Mt 27:61;
28:1) ou alguma dentre tantas “Marias” que surgem no cenário da
crucifixão, sepultamento e ressurreição de Jesus (Lc 24:10; Mc 16:1), mas isso
não passa de mera especulação. Quem sabe até seu nome não fosse Maria!
Ao resumir a biografia de Maria Madalena, Ellen White
não a identifica, em momento algum, como sendo a “mulher adúltera”
como seria de se esperar caso ela o fosse. Aquela que caíra, e cuja mente fora
habitação de demônios, chegara bem perto do Salvador em associação e serviço.
Foi Maria que se assentou aos pés de Jesus e dEle aprendeu. Foi ela que Lhe
derramou na cabeça o precioso unguento, e Lhe banhou os pés com as próprias
lágrimas. Achou-se aos pés da cruz e O seguiu ao sepulcro. Foi a primeira junto
ao sepulcro, depois da ressurreição. A primeira a proclamar o Salvador
ressuscitado” (O Desejado de Todas as Nações, p. 416,423; Lc
10:42,10:39; Jo 12:3,19:25,20:1,11,16-18; Mc 16:9). O saudoso, querido e
criterioso pesquisador da Palavra de Deus, pastor Roberto Rabello,
compartilhava dessa conclusão, dentre tantos outros abalizados estudiosos.
Fonte: Publicado na Revista Adventista (Fev. de 2008), escrito por Francisco Gonçalves que é
membro da Igreja Central do Rio de Janeiro e pai do cantor Leonardo Gonçalves.

Compare com: A mulher adúltera de João 8 – segundo Wilson Paroschi e segundo Hendrickson Rogers.

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