Editor da Nature afirma que interpretação do registro fóssil é baseada em preconceito humano!

De acordo com Sansom e Wills (2013) no artigo “Fossilization causes organisms to appear erroneously primitive by distorting evolutionary trees“, numa tradução livre “Fossilização provoca o aparecimento errôneo de organismos primitivos distorcendo árvores evolutivas”:

“Fósseis são vitais para calibrar as taxas de variação molecular e morfológica através do tempo geológico , e são a única fonte direta de dados que documentam transições macroevolutivas.” [1]

Mais adiante, os pesquisadores concluem que um fóssil pode ser interpretado erroneamente como primitivo quando na verdade ele é mais recente do que se imagina e isto constitui um problema para biólogos que tentam inferir taxas macroevolutivas ou sequenciais.
No entanto, para o paleontólogo evolucionista Henry Gee, editor sênior da revista Nature, é preciso assumir a verdade da teoria quando se estuda a origem humana, porque, por sua própria natureza, o registro fóssil não pode confirmá-lo. Em seu e-book publicado pelo The New York Times que tem por título “In Search of Deep Time: Beyond the Fossil Record to a New History of Life“, numa tradução livre “Em busca do tempo profundo: Além do registro fóssil para uma nova história da vida”[2], ele afirma: 

“Do nosso ponto de vista privilegiado nos dias de hoje, olhamos para trás, para a ancestralidade humana e escolhemos as características em fósseis de hominídeos que vemos em nós mesmos – um cérebro maior, uma posição ereta, o uso de ferramentas, e assim por diante. Naturalmente, nós organizamos os fósseis de hominídeos em uma série de acordo com a sua semelhança com o estado humano.”

Henry Gee, editor da Nature
E continua:

“Porque vemos evolução em termos de uma cadeia linear de ascendência e descendência, tendemos a ignorar a possibilidade de que alguns desses ancestrais poderiam ter sido ramos laterais em vez – primos colaterais , em vez de ancestrais diretos. […] 

Novas descobertas de fósseis se encaixam nessa história preexistente.Chamamos essas novas descobertas ‘elos perdidos’, como se a cadeia de ascendência e descendência fosse um objeto real para a nossa contemplação, e não o que ele realmente é: uma invenção completamente humana, criada após o fato, em forma de estar de acordo com os preconceitos humanos. Na realidade, o registro físico da evolução humana é mais modesto. Cada fóssil representa um ponto isolado, sem conexão cognoscível a qualquer outro dado fóssil , e todos flutuam na esmagadora mar de lacunas.”

Que interessante afirmação de um evolucionista que trabalha para uma revista evolucionista. Mais adiante ele esclarece que um dos problemas de Darwin, quando ele estava pensando sobre mecanismos de mudança evolutiva, era a falta de longos períodos de tempo para que seu mecanismo pudesse se tornar viável, pois Darwin havia visualizado uma evolução lenta e gradual, contudo, em seu tempo, era comum a ideia bíblica que assumia a Terra com alguns poucos milhares de anos. 
Foi nos trabalhos de Charles Lyell que Darwin encontrou o tempo evolutivo que necessitava: milhões de anos. Lyell com os seus estudos que o levaram a formar a teoria Uniformitarista, 

“a superfície da Terra teria sido sempre alterada de forma gradual, tendo por agentes forças naturais conhecidas, tais como a chuva, a neve, a erosão, a deposição, a sedimentação, o vento etc.” [3]

Esta teoria, que à primeira vista em nada se liga à Biologia, afetou diretamente a Teoria de Darwin. Lyell têm lugar de destaque nas bases do Darwinismo uma vez que a teoria uniformitarista, que Darwin aceitou como a mais correta, ia contra a teoria instaurada na altura, a catastrofista (apoiada pelo registro histórico do dilúvio). Logo, se Darwin seguisse as bases da teoria catastrofista, toda a sua explicação evolutiva não teria sentido. Ele precisava de um longo período de tempo que fosse suficiente para uma espécie mudar em outra.
No decorrer do seu texto, Gee ainda questiona um exemplo utilizado por Darwin para provar a evolução das espécies. Ele assim escreve:
“Em A Origem das Espécies, Darwin colocou o caso para a seleção natural – o mecanismo da evolução – por analogia. Dado que um grupo de criaturas variavam em forma, comportamento e outros atributos, a seleção natural escolhe essas variações mais adaptadas às condições ambientais prevalecentes, da mesma forma que columbófilos [modalidade desportiva relacionada a corrida entre pombos-correio] selecionar os animais com características mais próximas as características desejadas e usar esses animais como plantéis. Dê a um columbófilo um pombal bem abastecido e tempo suficiente, e ele poderia produzir pombos tão variados comopouterstumblers, e fantails [espécies de aves]. Por analogia, dar a natureza uma paleta de protoplasma na Terra primitiva e da distância total do tempo geológico, e ela poderia produzir pombos, columbófilos, e tudo mais.
Então vem a crítica ao exemplo de Darwin:

“A analogia entre os pombos de criação e seleção natural é, no entanto,incompleto. Pombos criados para serem pouters, tumblers e fantailsainda serão pombosEm nenhum momento o criador produzirá uma raça de pombo tão extrema que não se pode mais considerá-lo um pombo. Em analogia, Darwin pode elaborar registros dos mais extravagantes, infinitas variedades podem ser produzidas, mas em nenhum caso são novas espécies formadas. A seleção artificial ocorre contra a continuidade de tempo de todos os dias. A seleção natural como concebido por Darwin – esta força que muda uma espécie para outra – não aconteça dentro deste prazo.”



Depois Gee utiliza o exemplo do seu gato. Ele diz que se voltar 32 gerações atrás na genealogia do seu gato siamês, os parentes dele ainda serão gatos. E começa então a tratar da ancestralidade comum entre ele e o seu gato onde mais levanta questionamentos do que apresenta respostas, deixando assim o leitor com um turbilhão de perguntas que ele mesmo reconhece que a ciência nada sabe. Então, sobre o método científico, ele acrescenta:
“Como, então, é possível avaliar a probabilidade de diferentes alternativas? Formalmente, não é, porque não podemos descobrir as particularidades de ascendência e descendência que se juntam a nós em conjunto. Na prática, no entanto, pode-se adotar um princípio que tem resistido bem a ciência durante séculos. Esse é o princípio da parcimônia, ou Navalha de Occam: quando apresentar-se duas hipóteses é prudente escolher como hipótese de trabalho o que requer o menor número de suposições para se justificar. É importante perceber que o princípio da parcimônia não seleciona a resposta ‘certa’ – que é incognoscível -, mas apenas o melhor para estar ficando com primeiro. Porque nós não podemos esperar para recuperar a meada contínuo de ascendência e descendência que nos une, este é o melhor que podemos esperar alcançar. Isto não só é verdade em biologia evolutiva, mas em toda a ciência. Todas as hipóteses são provisórias e são susceptíveis de serem derrubadas quando novas evidências permitem uma maior aproximação da verdade. Se isso não fosse verdade, a ciência iria parar.”
Ou seja, para o Dr. Gee a questão da ancestralidade comum, assim como a linearidade da árvore filogênica são interpretações que se baseiam em um possível erro metodológico que ele chama de “preconceito humano” e que os fósseis são isolados e não representa nenhuma ligação com outro fóssil. Leia novamente o que ele disse:
“O retrato convencional da evolução humana – e, de fato, da história de vida – costuma ser uma das linhas de ancestrais e descendentes. Nós nos concentramos sobre os eventos que nos levam a humanidade moderna, mas negamos ou minimizamos a evolução de outros animais: nós cortamos fora todos os ramos da árvore da vida, exceto aquele que conduz a nós mesmos. O resultado, inevitavelmente, é um conto de melhoria progressiva, culminando na humanidade moderna. Do nosso ponto de vista privilegiado nos dias de hoje, olhamos para trás na ancestralidade humana e escolhemos as características em hominídeos fósseis que vemos em nós mesmos – um cérebro maior, uma posição ereta, o uso de ferramentas, e assim por diante. Naturalmente, nós organizamos os hominídeos fósseis em uma série de acordo com a sua semelhança com o estado humano. Homo erectus, com a sua aparência humana, postura ereta e cérebro grande, estará mais perto de nós do queArdipithecus ramidus, ou Australopithecus afarensis, que tinham cérebros menores e mais simiesco recursos.”



Conclusão
Se os fósseis são a nossa única fonte direta que documentam transições macroevolutivas e essa interpretação é baseada em um preconceito humano de uma falácia de ad hoc, o que resta para a Teoria da Evolução? Haja vista que o melhor exemplo de evolução que temos é o aumento do comprimento (0,88 mm para 0,95 mm), largura (0,62 mm para 0,81 mm) e profundidade (0,69 mm para 0,91 mm) do bico de tentilhões fêmeas em 33 anos de estudo [4]. Será sensata essa extrapolação baseada somente em bilhões de anos que nunca serão observados? No campo da biologia, as inferências devem existir e sua produção deve ser incentivada com o livre pensar, contudo, nunca sem se afastar nanômetros de distância das evidências.
Referências:
  1. SANSOM, RS; WILLS, MA. Fossilization causes organisms to appear erroneously primitive by distorting evolutionary trees. Scientific Reports 3, article number: 2545, 29 ago. 2013 doi:10.1038/srep02545.
  2. GEE, H. In Search of Deep Time: Beyond the Fossil Record to a New History of Life. Chapter one, New York, Free Press, 1999. ISBN: 0-684-85421-X. Disponível em: Acesso em 16 dez. 2013.
  3.  Wikipedia: Charles Lyell. Disponível em: Acesso em 16 dez. 2013.
  4. GRANT, PR; GRANT, BR. Evolution of Character Displacement in Darwin’s Finches.Science, v. 313, n. 5784, p. 224-226, 14 jul. 2006. Disponível em: Acesso em 16 dez. 2013.



Adaptado de: Francisco Tourinho. Blog Questões Últimas, 13 dez. 2013. Disponível em: <http://questoesultimas.blogspot.com.br/2013/12/interpretacao-do-registro-fossil-e.html> Acesso em 16 dez. 2013. [ênfases acrescentadas]

Deixe uma resposta