Marcelo Gleiser, crenças e uma visão razoável do método científico (enfim…)

por Marcelo Gleiser [meus comentários estão entre colchetes]
RESUMO O tema das relações entre ciência e religião continua gerando debates. O autor elenca diferentes posições assumidas por cientistas diante da questão. “O que pode surpreender a muitos”, escreve ele, “é que essa atração pelo mistério, em essência uma atração espiritual pela natureza, inspira o cientista em seu trabalho [é importante definir o espiritual. Como veremos, Gleiser o define dentro do materialismo, limitando e em certo sentido contradizendo o significado do termo].”
Ao discutirmos a complexa relação entre ciência e religião, com frequência nos deparamos com posições polarizadas: ou se afirma “acredito” ou se afirma “não acredito”, com convicção semelhante em ambos os casos.
Com frequência ainda maior, se perguntarmos no que, exatamente, se acredita, ou de onde vem a necessidade individual da fé, nos deparamos com respostas vagas que incluem “tradição”, “comunidade”, “mortalidade”, passando pelos que, de fato, têm sua fé examinada, questionada e reavaliada regularmente [e esses podem ser encontrados nos dois lados: na religião e na ciência].
Nossas convicções mudam com a idade e, entre elas muda, também, nossa relação com a fé [indício de Gleiser retrocedendo em seu ateísmo?].
Nessa polarização milenar, muita animosidade desnecessária vem da convicção infundada de que os que têm opinião diferente da nossa em relação à fé, ou os que acreditam de forma diferente, estão profundamente equivocados, ou são simplesmente tolos ou, pior, são infiéis que não merecem viver [ou não merecem estar na academia, não merecem publicar suas pesquisas, etc.].
Deixando de lado a óbvia radicalização dos muçulmanos de organizações terroristas como Estado Islâmico ou Al Qaeda, um exemplo mais ameno, mas não menos sintomático do radicalismo entre ateus e cristãos vem ocorrendo nos debates presidenciais americanos, nos quais os ateus são considerados os candidatos menos elegíveis. É impensável que se eleja um presidente ateu nos EUA.
Na realidade, existe todo um espectro de modalidades da fé humana que ocupa um rico espaço entre o radicalismo dos dois polos. Por exemplo, Francis Collins, diretor do Instituto Nacional da Saúde nos EUA –o órgão governamental que administra o maior número de bolsas de pesquisa nas áreas da medicina e da biologia– não vê conflito algum entre ser cristão e ser cientista.
Como ele, muitos cientistas veem a prática científica como mais um meio de admirar a obra divina, como uma forma de devoção religiosa. Essa é uma tradição antiga, que inclui, por exemplo, alguns dos patriarcas da ciência moderna, como Copérnico, Newton, Kepler e Descartes. A ruptura veio mais tarde, com o Iluminismo do século 18 [com os “iluminados” do iluminismo apenas, diga-se de passagem! O cristão que faz jus ao nome possui em si um espírito investigador e cético, ao mesmo tempo em que estuda o máximo que pode para ser útil e servidor, como Jesus foi cético e servidor em Seu contexto!].
LEIS
Para ateus conhecidos do público, como Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens (1949-2011), esse tipo de posição intermediária é inconsistente com os fundamentos da ciência: a natureza é material, e a matéria é organizada segundo leis quantitativas. O objetivo da ciência é descobrir essas leis; não existe espaço para mais nada [na cabeça fechada de quem a possui…].
Segundo eles, essa posição metafísica conciliatória cria uma série de problemas filosóficos. Embora atraente, ela força a coexistência incompatível do natural com o sobrenatural. Como a natureza pode ser tanto natural quanto sobrenatural? [Um exemplo simples: a vida existe, mas não se pode reproduzi-la em laboratório! A vida é naturalmente sobrenatural!]
Por definição, chamar um evento que ocorre e é percebido por alguém como sendo um “fenômeno sobrenatural” cria uma inconsistência básica: para que o fenômeno tenha sido observado, teve que emitir algum tipo de radiação eletromagnética (luz visível, radiação infravermelha etc.), que foi detectada por algum observador ou aparelho –”Eu vi um fantasma!”.
Em outras palavras, para que um fenômeno seja detectado, tem que trocar energia com quem (ou com o que) o observa. Um fenômeno chamado de sobrenatural, uma vez observado, passa a ser perfeitamente natural, mesmo se misterioso ou aparentemente inexplicável. Um fantasma que é visto não é mais uma entidade sobrenatural [aqui Gleiser confunde realidade com materialidade, talvez por seus subsunçores evolucionistas uniformitarianistas, que creem que o presente é a chave para entender o passado! Veja, a vida é real, mas esse fato não a torna necessariamente produto de processos naturais e, portanto, materialistas. A realidade é onde o sobrenatural é percebido tanto quanto o que é material. A origem, a manutenção e o futuro do que é material implicam/podem implicar o sobrenatural. Sem falar na existência natural de fenômenos sobrenaturais, milagres, entidades, e outros tão presentes dentro e fora da religião. Por exemplo: por que um cadáver e um corpo vivo são fisiologicamente idênticos, mas só um está vivo? Quem decide?].
Alguns adotam a posição que o biólogo americano Stephen Jay Gould (1941-2002) chamou de Noma (do inglês “Non-overlapping magisteria”, magistérios que não se superpõem) e compartimentam a ciência e a religião em esferas limitadas de influência, afirmando algo como “a religião começa onde a ciência termina”.
Apesar de cômoda, essa posição não vai muito longe [tão longe quanto se queira!].
À medida que a ciência avança, a fronteira entre os dois magistérios vai migrando, refletindo a posição conhecida como “Deus dos Vãos”, a religião tapando os buracos da nossa ignorância científica [e o naturalismo metafísico tentando arduamente tapar as evidências naturais de uma origem e manutenção sobrenaturais].
Por outro lado, afirmar categoricamente que o sobrenatural tem uma existência intangível e imensurável posiciona sua natureza além do discurso científico, anulando qualquer possibilidade de troca construtiva de ideias [mas isso é pura filosofia grega amigo! A boa religião tanto quanto a boa ciência não são fideístas].
O fato é que a ciência e a religião claramente se superpõem na cabeça das pessoas [ou se aliam; cada cabeça é única, mas as evidências são as mesmas para todos], nas escolhas que fazemos na vida, nos desafios morais que a sociedade moderna enfrenta. É por demais ingênuo negar o poder da religião no mundo, com bilhões de pessoas declarando-se seguidores de algum tipo de fé, mesmo que muitos deles definam sua fé de forma vaga.
Além disso, a posição dos ateus radicais também é inconsistente com os parâmetros do método científico, algo que talvez surpreenda muita gente [quem te viu, quem te vê hein?!]. Basta ver que o ateísmo é a crença na não crença, já que a possibilidade da existência de qualquer tipo de divindade é negada categoricamente. Ora, a ciência não pode negar a existência de algo categoricamente, apenas após observações absolutamente conclusivas. E como podemos ter certeza do que ainda não medimos?
AGNÓSTICO
A posição mais consistente com o método científico é a do agnóstico, como haviam já percebido Thomas Huxley e Bertrand Russell, entre muitos outros: não vejo qualquer razão para crer, mas, com base no que sei não posso negar absolutamente a possibilidade de que alguma entidade divina exista. Como escreveu Huxley, criador do termo “agnóstico”: “É errôneo afirmar que se tem certeza da verdade objetiva de uma proposição, a menos que seja fornecida evidência que justifique logicamente esta certeza”.
Em vista da diversidade de posições, a questão essencial é a origem dessa necessidade de acreditar que identificamos na maioria absoluta das culturas do passado e do presente. O que a crença oferece que é tão necessário a tantos?
Pertencer a um grupo religioso confere um senso de comunidade imediato. Ao encontrar outros membros de sua comunidade na igreja ou templo, a pessoa vê sua crença justificada, dado que é compartilhada por tantos outros. Mais do que a crença em si, a pessoa se vê integrada num grupo com valores afins.
Isso é tanto verdade para as pessoas de fé quanto para aquelas seculares, sejam elas ateias ou agnósticas. Seres humanos são criaturas tribais, e tribos definem-se a partir de certos símbolos, mitos ou código moral [esta é uma maneira de crer; outra é supor que a moralidade é anterior a humanidade, sendo por esta percebida e obedecida!].
Não há dúvida de que nossos ancestrais entenderam que existe uma enorme vantagem em pertencer a um grupo. Fazer parte de uma tribo oferecia uma proteção que aumentava as chances de sobrevivência num ambiente extremamente hostil: unidos venceremos. Tanto no passado quanto no presente, fazer parte duma tribo confere legitimidade social imediata [que tribo? E só existiam indígenas no passado? E as civilizações tão cheias de engenharias? E os fósseis “humanoides” e suas tecnologias avançadas? Bom, mas cada um escolhe suas crenças ou a conjuntura histórica da vida de um indivíduo lhe facilita certas (des)crenças, não é mesmo?].
Para muita gente, a fé pode ser a justificativa oferecida para participar de um grupo religioso, mas é o senso de comunidade, de valores compartilhados pelo grupo, o que está por trás da devoção [ou chamados sobrenaturais como vêm ocorrendo no Estado Islâmico e países intolerantes ao cristianismo: confira aqui!].
Existe, no entanto, um outro aspecto da fé, bem mais subjetivo do que tribal. Como descreveu o psicólogo americano William James em sua obra-prima “As Variedades da Experiência Religiosa”, a experiência religiosa atinge seu clímax na subjetividade da experiência individual, na comunhão da pessoa com o desconhecido, na percepção de transcendência dos limites da existência humana, delineada pelas barreiras do espaço e do tempo.
As visões e revelações dos profetas e dos santos, a experiência emocional do divino ocorre no indivíduo, mesmo quando induzida pelo grupo –por exemplo, através de rituais. Existe muito mais no mundo do que o que percebemos ou podemos medir, e essas características “ocultas” são igualmente importantes na nossa construção do que definimos como realidade [a realidade é pura filosofia? Revelação e profecias cumpridas com exatidão também?].
Como escreveu James, “toda a sua vida subconsciente, seus impulsos, suas crenças, suas necessidades são a premissa da sua existência consciente; existe algo dentro de você que sabe de forma absoluta que o resultado disso tudo deve ser mais verdadeiro do que qualquer tipo de argumento lógico, por mais articulado que seja, que tente contradizer essas convicções subconscientes” [outra maneira de dizer o que disse mais acima sobre a conjuntura histórica do indivíduo].
Mesmo que o filósofo George Santayana (1863-1952) e outros tenham criticado James por “encorajar a superstição”, ninguém pode negar que a razão tem alcance limitado. A ciência, se vista como expressão da razão humana, espalha-se por todos os cantos do conhecimento de forma magnífica, mas seu alcance não é ilimitado [apostatar do cientificismo é sempre uma decisão inteligente! Será que ela é sempre tomada naturalmente?].
Existe outra dimensão da fé, separada dos rituais tribais, da religião organizada, que dá expressão a uma necessidade primária que temos de comunhão com o desconhecido. Esse é o aspecto mais universal da necessidade humana de crer, que transcende as divisões arbitrárias da fé criadas no decorrer da história; as religiões, as tradições, os cultos, as tribos e suas regras. Não existe aqui qualquer menção a uma supersticiosidade irracional ou mística. O que identificamos é a necessidade individual da crença, expressa por cada um de forma variada.
Quando Einstein menciona sua “emoção religiosa cósmica” para descrever sua conexão espiritual com a natureza, está tentando expressar precisamente essa atração humana pelo mistério, pelo desconhecido. “Espiritual” não implica a crença numa dimensão não material [é verdade, depende da definição que se escolhe e da situação que se aborda].
O que pode surpreender a muitos –especialmente aos que veem cientistas através do estereótipo do racionalista frio– é que essa atração pelo mistério, em essência uma atração espiritual pela natureza, inspire o cientista em seu trabalho. Não é Deus que se busca no questionamento científico, mas a transcendência do humano, a busca por uma dimensão além do cotidiano que dá sentido à nossa busca por sentido [no método científico não enviesado pelo naturalismo e na boa religião também!].
Mesmo o cientista secular quando estende sua curiosidade ao oceano do desconhecido está praticando essa crença, expressando a necessidade que temos de conhecer nossa história e de explorar o novo, estendendo nossa visão da realidade.

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