Ciência não exclui Deus

Apesar das opiniões equivocadas no que tange à teologia bíblica e sua relação com o darwinismo, creio que Collins já deu um grande passo do ateísmo ao cristianismo. E demonstra grande coragem ao expor sua fé num meio cético e preconceituoso. Mas ele ainda está a caminho. E quem não está?

Apesar das opiniões equivocadas no que tange à teologia bíblica e sua relação com o darwinismo, creio que Collins já deu um grande passo do ateísmo ao cristianismo. E demonstra grande coragem ao expor sua fé num meio cético e preconceituoso. Mas ele ainda está a caminho. E quem não está?

A revista Veja desta semana (24/01[/2008]) traz entrevista com o biólogo norte-americano que desvendou o genoma humano Francis Collins. Segundo a revista, “Collins é um dos cientistas mais notáveis da atualidade. Diretor do Projeto Genoma, bancado pelo governo americano, foi um dos responsáveis por um feito espetacular da ciência moderna: o mapeamento do DNA humano, em 2001. Desde então, tornou-se o cientista que mais rastreou genes com vistas ao tratamento de doenças em todo o mundo. Collins também é conhecido por pertencer a uma estirpe rara, a dos cientistas cujo compromisso com a investigação do mundo natural não impede a profissão da fé religiosa. Alvo de críticas de seus colegas, cuja maioria nega a existência de Deus, Collins decidiu reagir. Ele lançou há pouco nos Estados Unidos o livro The Language of God (A Linguagem de Deus). Nas 300 páginas da obra, o biólogo conta como deixou de ser ateu para se tornar cristão aos 27 anos e narra as dificuldades que enfrentou no meio acadêmico ao revelar sua fé. ‘As sociedades precisam tanto da ciência como da religião. Elas não são incompatíveis, mas complementares’, explica o cientista.”

Na resposta à primeira pergunta de Veja, o biólogo conta porque passou a crer em Deus: “Houve um período em minha vida em que era conveniente não acreditar em Deus. Eu era jovem, e a física, a química e a matemática pareciam ter todas as respostas para os mistérios da vida. Reduzir tudo a equações era uma forma de exercer total controle sobre meu mundo. Percebi que a ciência não substitui a religião quando ingressei na faculdade de medicina. Vi pessoas sofrendo de males terríveis. Uma delas, depois de me contar sobre sua fé e como conseguia forças para lutar contra a doença, perguntou-me em que eu acreditava. Disse a ela que não acreditava em nada. Pareceu-me uma resposta vaga, uma frase feita de um cientista ingênuo que se achava capaz de tirar conclusões sobre um assunto tão profundo e negar a evidência de que existe algo maior do que equações. Eu tinha 27 anos. Não passava de um rapaz insolente. Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem as pessoas superar desafios.”

Collins prossegue afirmando que “os cientistas que se dizem ateus têm uma visão empobrecida sobre perguntas que todos nós, seres humanos, nos fazemos todos os dias. ‘O que acontece depois da morte?’ ou ‘Qual é o motivo de eu estar aqui?’ Não é certo negar aos seres humanos o direito de acreditar que a vida não é um simples episódio da natureza, explicado cientificamente e sem um sentido maior. Esse lado filosófico da fé, na minha opinião, é uma das facetas mais importantes da religião. A busca por Deus sempre esteve presente na história e foi necessária para o progresso. Civilizações que tentaram suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por meio da ciência – como, recentemente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao – falharam. Precisamos da ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais”.

Em seguida, Veja comenta: “A maioria dos cientistas argumenta que a crença em Deus é irracional e incompatível com as descobertas científicas. O zoólogo Richard Dawkins, com quem o senhor trava um embate filosófico sobre o tema, diz que a religião é a válvula de escape do homem, o vírus da mente”, para em seguida perguntar: “Como o senhor responde a isso?”

“Essa perspectiva de Dawkins é cheia de presunção. Eu acredito que o ateísmo é a mais irracional das escolhas. Os cientistas ateus, que acreditam apenas na teoria da evolução e negam todo o resto, sofrem de excesso de confiança. Na visão desses cientistas, hoje adquirimos tanta sabedoria a respeito da evolução e de como a vida se formou que simplesmente não precisamos mais de Deus. O que deve ficar claro é que as sociedades necessitam tanto da religião como da ciência. Elas não são incompatíveis, mas sim complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a outra esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. No ano passado foram lançados vários livros de cientistas renomados, como Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris, que atacam a religião sem nenhum propósito. É uma ofensa àqueles que têm fé e respeitam a ciência. Em vez de blasfemarem, esses cientistas deveriam trabalhar para elucidar os mistérios que ainda existem. É o que nos cabe.”

“O senhor afirma que as sociedades precisam da religião, mas como justificar as barbaridades cometidas em nome de Deus através da história?”, pergunta Veja. [Antes de prosseguir com a resposta de Collins a esta pergunta, gostaria de registrar a existência do livro The Black Book of Communism, da Harvard University Press, que documenta o fato de que o materialismo/ateísmo foi responsável por mais de 100 milhões de mortes. Por que Veja não aborda isso? Por que a imprensa se cala aqui? Bem, voltemos a Collins:]

“Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas em nome da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William Wilberforce, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a escravatura. O problema é que a água pura da fé religiosa circula nas veias defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que às vezes a torna turva [tremenda a comparação!]. Isso não significa que os princípios estejam errados, apenas que determinadas pessoas usam esses princípios de forma inadequada para justificar suas ações. A religião é um veículo da fé – essa, sim, imprescindível para a humanidade.”

[Veja escorrega na pergunta seguinte e Collins tropeça mais ainda, ao tratarem do assunto da Teoria do Design Inteligente. Mas deixo o comentário dessa questão com o coordenador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente, Enézio de Almeida Filho.]

A pergunta seguinte de Veja é: “Qual a sua leitura da Bíblia?”

“Santo Agostinho, no ano 400, alertou para o perigo de se achar que a interpretação que cada um de nós dá à Bíblia é a única correta, mas a advertência foi logo esquecida”, diz Collins. “Agostinho já dizia que não há como saber exatamente o que significam os seis dias da criação. Um exemplo de que uma interpretação unilateral da Bíblia é equivocada é que há duas histórias sobre a criação no livro do Gênesis 1 e 2 – e elas são discordantes. Isso deixa claro que esses textos não foram concebidos como um livro científico, mas para nos ensinar sobre a natureza divina e nossa relação com Ele. Muitas pessoas que crêem em Deus foram levadas a acreditar que, se não levarmos ao pé da letra todas as passagens da Bíblia, perderemos nossa fé e deixaremos de acreditar que Cristo morreu e ressuscitou. Mas ninguém pode afirmar que a Terra tem menos de 10 000 anos a não ser que se rejeitem todas as descobertas fundamentais da geologia, da cosmologia, da física, da química e da biologia.” [Aqui Collins parece carecer de conhecimentos de hermenêutica que lhe possibilitem entender o foco dos dois textos de Gênesis. Os relatos não são contraditórios; são complementares. E quanto à idade da Terra, há sim evidências de uma criação “recente”, não mais antiga que 10 mil anos. Mas esse é assunto para uma postagem futura.]

Depois de dizer que acredita em dogmas e milagres, Collins sai em defesa do evolucionismo teísta, segundo o qual é possível concilar Bíblia e darwinismo. Clique aquipara saber por que essa mistura é impossível.

O tema seguinte na entrevista é a genética do comportamento. Collins afirma: “Não há provas de que o altruísmo seja uma característica do ser humano que permite sua sobrevivência e seu progresso, como sugerem os evolucionistas. Eles querem justificar tudo por meio da ciência, e isso acaba sendo usado para difundir o ateísmo. … Há muitas teorias interessantes nessa área, mas são insuficientes para explicar os nobres atos altruístas que admiramos. O recado da evolução para cada um de nós é propagar o nosso DNA e tudo o que está contido nele. É a nossa missão no planeta. Mas não é assim, de forma tão lógica, que entendo o mundo, muito menos o altruísmo e a religiosidade. Penso em Oskar Schindler, que se sacrificou por um longo período para salvar judeus, e não pessoas de sua própria fé. Por que coisas desse tipo acontecem? Se estou caminhando à beira de um rio, vejo uma pessoa se afogar e decido ajudá-la mesmo pondo em risco a minha vida, de onde vem esse impulso? Nada na teoria da evolução pode explicar a noção de certo e errado, a moral, que parece ser exclusiva da espécie humana.”

Nota: Apesar das opiniões equivocadas no que tange à teologia bíblica e sua relação com o darwinismo, creio que Collins já deu um grande passo do ateísmo ao cristianismo. E demonstra grande coragem ao expor sua fé num meio cético e preconceituoso. Mas ele ainda está a caminho. E quem não está?

Em tempo: Conforme destaca […] Sérgio Santeli em seu comentário a esta postagem, o livro The Black Book of Communismestá disponível em português e foi publicado pela editora Bertrand Brasil. O Livro Negro do Comunismo, que tem 922 páginas, é um levantamento histórico e documental que traz à tona os crimes e horrores cometidos em nome do comunismo/ateísmo e que até recentemente estavam escondidos pela máquina de propaganda dos países socialistas.

Fonte: Michelson Borges.

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