Criacionismo científico e design inteligente

             Se há um relógio, houve um…

Existem três principais ramificações distintas dentro do criacionismo: a religiosa, a bíblica e a científica. Normalmente, quando falamos de criacionismo, as pessoas associam apenas aos dois primeiros e se esquecem de que existe uma terceira ramificação, que também surgiu há algumas décadas, nos Estados Unidos, chamada de “criacionismo científico”. Logo, não são todos iguais. O criacionismo científico vem sendo definido e divulgado desde a década de 1970.[1] A propósito, associações e institutos criacionistas norte-americanos há muito tempo defendem que apenas o “criacionismo científico” seja ensinado nas escolas públicas como uma alternativa válida ao evolucionismo.[2] Porém, de acordo com o engenheiro Dr. Henry Morris, fundador e presidente emérito do Institute for Creation research (ICR), “em uma escola ou faculdade cristã, […] é apropriado e muito importante demonstrar que o criacionismo bíblico e o criacionismo científico são totalmente compatíveis, dois lados da mesma moeda.” Para ele, “a criação revelada nas Escrituras é apoiada por todos os verdadeiros fatos da natureza; o estudo combinado pode corretamente ser chamado ‘criacionismo bíblico-científico’.”[2]

Segundo Morris, “os criacionistas não propõem que as escolas públicas ensinem a criação em seis dias, a queda do homem e o dilúvio de Noé. Eles propõem, entretanto, que devem ensinar as evidências de uma criação complexamente completada, o princípio universal da decadência (em contraste com a suposição evolutiva de organização crescente) e as evidências mundiais de catastrofismo recente. Todos esses temas estão implícitos em dados científicos observáveis”.[2]

Quando tratamos especificamente do criacionismo científico, é possível, sim, demonstrar cientificamente que o universo e a vida foram criados.[3] Só não é possível demonstrar quem criou. Portanto, o criacionismo científico trabalha apenas a questão de se o universo e a vida foram criados ou surgiram espontaneamente. Como se pode ver, a proposta do criacionismo científico não é religiosa, embora, por vezes, possua implicações religiosas.

É válido lembrar que o criacionismo científico não se preocupa em defender uma Terra jovem, de cerca de seis mil anos de idade, tal como faz grande parte dos adeptos do criacionismo bíblico. Por exemplo, o Dr. Thomas Barnes analisou as medições diretas feitas do campo magnético da Terra durante os últimos 140 anos e observou um declínio rápido da sua força; um decaimento da ordem de 5% por século.[4, 5] Diante disso, o Dr. Barnes calculou que esse campo não poderia estar decaindo há mais de dez mil anos, o que significa que essa evidência sugere a possibilidade de a vida na Terra ter dez mil anos de idade, em lugar dos usais seis mil anos. No entanto, questões sobre a idade são irrelevantes para o criacionismo científico.

Por outro lado, muitos acusam a Teoria do Design Inteligente (TDI) de ser apenas um “criacionismo disfarçado”. Pensando nisso, o físico Adauto Lourenço explica a diferença existente entre as duas propostas: “É verdade que ela [TDI] encontra-se incorporada direta e indiretamente na maioria das posições criacionistas conhecidas. No entanto, ela não é um sinônimo de criacionismo, pois sua ênfase está na busca por sinais de inteligência na estrutura da vida e do universo, e não nas causas que teriam produzido esses sinais. A existência de um Criador, quem seria Ele e quais os Seus propósitos na criação não fazem parte dos questionamentos da teoria do design inteligente.”[6: p. 14]

O biólogo molecular Dr. Michael Denton também já havia feito distinção há algum tempo entre o design inteligente (DI) e a acusação de “premissas religiosas”: “A inferência de planejamento é uma indução puramente a posteriori, baseada numa aplicação inexoravelmente consistente da lógica e da analogia. A conclusão pode ter implicações religiosas, mas não depende de pressuposições religiosas.”[7: p. 341]

Outro fato que não se pode ignorar é que, dentro do escopo do criacionismo científico, é possível acomodar, de igual modo, algumas de suas variações, tais como: criacionismo do dia-era, criacionismo da Terra velha e criacionismo da Terra jovem.

Para o médico Carl Wieland, fundador da Journal of Creation e ex-diretor geral do Creation Ministries International (CMI), na Austrália, o design inteligente pode ser entendido como um “subconjunto” do criacionismo.[8] Em relação ao mérito do pioneirismo, o Dr. Henry Morris afirma que as ideias de “design inteligente estavam em nossos argumentos criacionistas desde que começamos [em 1970]”.[9] Segundo ele, “um de nossos cientistas do ICR (o falecido Dr. Dick Bliss) já usava este exemplo [do flagelo bacteriano] em suas conversas sobre criacionismo há algumas décadas”.

Inclusive, o Dr. William Dembski, proponente do DI, concordou com a afirmação de Morris ao dizer que ele “aptamente nota” o uso do flagelo como exemplo.[10] O Dr. Morris acrescenta: “Os criacionistas deram as boas-vindas aos insights e argumentos do DI: certamente não vemos qualquer conflito com o criacionismo científico. Para nós, não é criação ou design Inteligente.”

Vale lembrar que o design inteligente, tal como o conhecemos hoje, foi oficialmente estabelecido como teoria científica no ano de 1993, quando um grupo de cientistas e filósofos norte-americanos se reuniu em uma conferência na cidade de Pajaro Dunes, Califórnia, a fim de questionar a teoria da evolução.[11]

Por outro lado, a geneticista criacionista Dra. Geórgia Purdom diz que “as raízes históricas do movimento do DI estão no movimento de teologia natural dos séculos 18 e 19.”[12] Ademais, cientistas cristãos respeitados como Newton e Kepler e a maioria dos outros “pais da ciência” acreditavam no design inteligente como o próprio fundamento da ciência.[13, 14]

Portanto, podemos concluir, diante da análise das evidências levantadas, que apesar de alguns autores afirmarem que o criacionismo foi o ponto de origem do design inteligente, este se desenvolveu ao longo do tempo e se tornou uma teoria independente, isenta de pressuposições religiosas.[15] A conclusão é esta: o criacionismo científico e o designinteligente são proposições distintas uma da outra.

Referências:

[1] Morris HM (Ed.). Scientific Creationism. San Diego: C.L.P. Publishers, 1974, p.12.

[2] Morris HM. The Tenets of Creationism. Acts & Facts. 1980;9(7). Disponível em: https://www.icr.org/article/168/

[3] Entrevista concedida por Adauto Lourenço. Pesquisador defende criação do mundo. Entrevistadora: Gisele Barcelos. JM Online, (16/06/2013). Disponível em: http://www.jmonline.com.br/novo/?noticias,27,entrevista,82036

[4] McDonald KL, Gunst RH. Na analysis of the Earth’s Magnetic Field from 1835 to 1965. ESSA Technical Report, IER 46-IES 1, U.S. Government Printing Office, Washington, 1967.

[5] Barnes TG. Origin and Destiny of the Earth’s Magnetic Field. 2. Ed. El Cajon, CA: Institute for Creation Research, 1983, p. 101-106.

[6] Lourenço A. Como tudo começou: uma introdução ao criacionismo. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2007.

[7] Denton M. Evolution, A Theory in Crisis. Bethesda, MD: Adler and Adler, 1986.

[8] Wieland C. Intelligent Design: why the fuss, and what’s it about? Creation.com. Disponível em: http://creation.com/intelligent-design-why-the-fuss-and-what-is-it-about

[9] Morris HM. Intelligent Design and/or Scientific Creationism. Acts & Facts. 2006; 35(4). Disponível em:https://www.icr.org/article/2708/

[10] Dembski WA. Intelligent design’s contribution to the debate over evolution: a reply to henry morris. Site pessoal de Dembski, (01/02/2005). Disponível em: https://billdembski.com/documents/2005.02.Reply_to_Henry_Morris.htm

[11] Nelson PA. Life in the Big Tent: Traditional Creationism and the Intelligent Design Community. Christian Research Journal 2002; 24(4):20-25. Disponível em: http://www.equip.org/article/life-in-the-big-tent/

[12] Purdom G. The Intelligent Design Movement: Does the identity of the Creator really matter? Answers magazine, (02/05/2006). Disponível em:  https://answersingenesis.org/intelligent-design/the-intelligent-design-movement/

[13] Stewart MA (Ed.). Selected Philosophical Papers de Robert Boyle. New York e Manchester: Manchester University Press, 1979, p.144.

[14] Torley VJ. Newton on Intelligent Design. Uncommon Descent, (14/03/2013). Disponível em:http://www.uncommondescent.com/intelligent-design/newton-on-intelligent-design/

[15] Numbers RL. The Creationists: From Scientific Creationism to Intelligent Design. Harvard University Press, 2006. 624p.

 

Fonte: Michelson Borges e Everton F. Alves, NUMAR-SCB.

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