Comparativo entre a Bíblia e os mitos do Antigo Oriente Próximo!

bible mythsExiste diferença entre a Bíblia e os mitos do Antigo Oriente Próximo?

Vivemos em uma época de reducionismo. Isso se torna especialmente evidente pelo uso comum da palavra “apenas”. Os reducionistas dizem: “A mente humana é apenas um sistema complexo de matéria”, ou “A moralidade é apenas um subproduto da evolução para a sobrevivência do grupo.”[1] Quando se trata de estudos bíblicos, normalmente o reducionismo assume a seguinte forma: “As narrativas do Gênesis são apenas mais um mito do Antigo Oriente Próximo.” Os pós-evangélicos usam hoje, regularmente, esses argumentos. Em nível popular, escritores como Rachel Held Evans comentam sobre os “notadamente semelhantes” relatos da criação e do dilúvio do Antigo Oriente Próximo em relação aos encontrados em Gênesis. Compreender Gênesis como não histórico, um mito não científico, que contém os mesmos “recursos literários humanos” e “pressupostos cosmológicos” que os do Antigo Oriente Próximo, teria sido, segundo ela mesma, “libertador”.[2]

Peter Enns é o estudioso pós-evangélico mais frequentemente associado com essa visão. Em seu livro Inspiration and Incarnation (Inspiração e Encarnação), Enns procurou mostrar que Deus se ajustou às culturas do Antigo Oriente Próximo, usando formas literárias não históricas e não científicas em Gênesis (e em outros escritos) para comunicar sua mensagem.[3] Muitos seguiram sua liderança, especialmente aqueles que procuram resolução da [suposta] discórdia percebida entre fé e ciência.

No contexto da academia secular, tais pontos de vista são inquestionáveis. O paradigma dominante se originou na Escola “História das Religiões”. Essa perspectiva do século 19 considerava que a religião monoteísta era originária das classes mais baixas da sociedade primitiva, da criação do xamanismo tribal como um meio de afirmar o poder sobre os mais fisicamente ou socialmente poderosos.[4] Essas crenças xamanísticas teriam evoluído para o politeísmo, em seguida para o henoteísmo e, eventualmente, para o monoteísmo. A Escola baseou sua visão na semelhança religiosa de culturas antigas e procurou encaixar todos os dados em um paradigma linear, evolutivo. Dentro desse paradigma, as narrativas do Gênesis tornaram-se “apenas” mais um mito ao lado dos mitos de outras culturas antigas. No início do século 20, os estudiosos começaram a criticar o quanto exatamente certas crenças se encaixam dentro desse paradigma. Eventualmente, a visão acadêmica predominante se desviou do modelo linear, embora a interpretação da narrativa do Gênesis “apenas” como mais um mito da criação continue a prevalecer.

A razão disso?  Há semelhanças óbvias entre Gênesis e outras histórias antigas e modernas das origens. Os estudiosos que mantêm esse ponto de vista têm apresentado as semelhanças como as características mais essenciais do Gênesis e as diferenças como aspectos secundários e não essenciais das narrativas. Mas e se isso for um equívoco? E se as diferenças forem os aspectos essenciais no Gênesis e na visão de mundo do Antigo Testamento? E se Gênesis e outras histórias do Antigo Oriente forem semelhantes da mesma maneira que minha minivan KIA e uma Ferrari são semelhantes? “Ei, ambas têm rodas e um volante, portanto, a Ferrari é ‘apenas’ um outro tipo de carro. Quer trocar?” Parece-me que em Gênesis, como na venda de automóveis, as diferenças são muito mais significativas do que as semelhanças.

John Oswalt, professor de Hebraico e Estudos do Antigo Testamento no Seminário Teológico de Asbury, fez essa defesa recentemente em seu livro The Bible Among the Miths (A Bíblia Entre os Mitos). Ele se baseia em trabalhos mais antigos de G. E. Wright, da Universidade de Harvard, para apresentar sua tese, alegando que o trabalho de Wright ainda permanece como uma crítica eficiente da visão predominante.[5] Uma vez que os dados do Oriente Antigo não se alteraram significativamente em quase 70 anos, Oswalt afirma que a principal razão por trás da persistência da visão reducionista não são os dados em si, mas “convicções teológicas e filosóficas anteriores”, sustentadas por aqueles que militam nesse campo.[6] O livro é dividido em duas seções: a primeira discute a Bíblia e o gênero dos mitos antigos; a última discute a escrita da Bíblia e da história antiga. Embora ambos os temas sejam altamente relevantes para a apologética cristã, este último tem sido mais plenamente abordado em outros lugares e, assim, este artigo, em grande parte, se concentrará na primeira seção e suas implicações para a tarefa apologética.[7]

A primeira seção faz uma boa introdução para os vários significados contemporâneos de mito: o sentido etimológico, que salienta a “falsidade da coisa que está sendo descrita”;[8] o sociológico, que destaca se o grupo vê ou não algo como verdade, mas ignora ou não se a coisa é realmente verdade; o literário, que significa simplesmente uma certa maneira de escrever; o fenomenológico, que destaca as características comuns dos escritos que têm sido chamado de mitos. Oswalt passa a maior parte de sua escrita neste último significado, pois este é o sentido frequentemente utilizado em estudos bíblicos. Ele mostra que os defensores dessa visão procuram definir mito como aquilo que busca relacionar o natural com o humano, o ideal com o real, o pontual com o contínuo. Após a análise desses pontos de vista, ele conclui, mostrando que um dos aspectos essenciais de definições descritivas ou fenomenológicas do mito é o que ele chama de “continuidade” ou “correspondência”; “que todas as coisas são contínuas umas com as outras”.[9]

Esse pressuposto central de continuidade explica a quase universal atribuição antiga de características humanas ao mundo natural. Ele explica o quadro cíclico através do qual a maior parte do mundo antigo via a realidade, para não mencionar a crença de que a reconstituição dos mitos traz satisfação presente para aqueles que o reconstituem. Após essa análise, Oswalt faz esta afirmação provocativa sobre a relação da Bíblia com esse mundo dos mitos:

“Assim, o mito é uma forma de expressão, seja literária ou oral, em que as continuidades entre os reinos humano, natural e divino são expressas e concretizadas. Ao reforçar essas continuidades, o mito busca assegurar o funcionamento ordenado da natureza e da sociedade humana. O fato é que a Bíblia tem um entendimento completamente diferente da existência e das relações desses reinos. Como resultado, ela funciona de forma inteiramente diferente. Suas narrativas não convertem a realidade divina contínua fora do mundo invisível real em uma reflexão visível dessa realidade. Pelo contrário, são um ensaio dos atos não repetíveis de Deus em um tempo e espaço identificável, em concerto com os seres humanos […] Sua finalidade é provocar escolhas e comportamentos humanos por meio da memória. Nada poderia estar mais longe do propósito de um mito. O que quer que seja a Bíblia, verdadeira ou falsa, ela não é mito.”

Oswalt não acredita que a visão reducionista da Bíblia possa ser mantida, e argumenta apaixonadamente contra a ideia de ver a Bíblia como apenas mais um mito, primeiramente por descrever a perspectiva de continuidade que subjaz a outras literaturas do Antigo Oriente Próximo. Oswalt define a continuidade subjacente aos mitos como “a ideia de que todas as coisas que existem são partes umas das outras […] sem distinções fundamentais entre os três reinos: a humanidade, a natureza e o divino”.[10] Tudo coexiste nessa visão de mundo. Os ídolos são símbolos dos deuses, mas, em um sentido muito real, são os deuses. Tempestades são a ação dos deuses. A reconstituição sexual humana da suposta atividade sexual dos deuses inspira a produção agrícola na realidade. Cada reino é contínuo e conectado. Nessa visão de mundo, “o criador de mitos racionaliza da realidade dada para o divino”.[11]

Oswalt dá uma variedade de características comuns de uma visão de mundo fundada na continuidade. Primeiro, essa visão enfatiza a realidade presente em detrimento do passado e do futuro. As histórias das origens não são contadas para enfatizar o que aconteceu, em si, mas para explicar a situação atual com sua complexidade de relações. Segundo, ela confunde a imagem e o real. Assim, o deus por trás do ídolo se confunde com a manifestação do deus na imagem do(s) ídolo(s). A fonte unificadora divina por trás dos deuses não pode ser facilmente distinguida da manifestação dos deuses. Terceiro, ela enfatiza símbolos naturais. A partir de uma perspectiva de continuidade, isso faz sentido, já que o que acontece na natureza representa e afeta tanto a esfera humana como a divina. Quarto, ela valoriza a magia. Oswalt define magia como a capacidade de “realizar algo no reino divino, […] fazendo uma coisa semelhante no reino humano”.[12] Nessa perspectiva, a prostituição no culto dos povos do Antigo Oriente é uma afirmação teológica sobre a natureza da realidade. A ação sexual humana produzia prole e, em uma visão de mundo de continuidade, tal ação teria sido pensada para inspirar a ação sexual da divindade a fim de produzir a colheita. Finalmente, uma visão de mundo de continuidade inerentemente nega os limites. Uma vez que tudo se conecta e está inter-relacionado, não se pode esperar encontrar limites distintos entre as coisas. Portanto, não é surpresa encontrar prostituição, bestialidade, incesto e outros tipos de comportamento sexual, já que essa perspectiva inerentemente rejeita os limites.

Com base nessas características subjacentes a uma visão de mundo de continuidade, Oswalt apresenta as seguintes características do mito, tanto como deduções lógicas dessa cosmovisão quanto como características comuns de mito do Antigo Oriente: o politeísmo, a idolatria, a eternidade da matéria caótica, uma negação da personalidade individual, uma baixa visão do divino e do humano, a visão de conflitos como uma fonte de vida, a não existência de um padrão único para a ética e um conceito cíclico da existência. Cada uma dessas características provém claramente dos pressupostos subjacentes citados acima. Oswalt deixa claro que essa perspectiva não era apenas típica do Antigo Oriente, mas quase universal, incluindo os gregos e os romanos, os hindus e várias outras religiões asiáticas. Ele afirma que se “o homem pode descobrir a realidade última através da extrapolação de sua própria experiência […] [então ele vai chegar], por todo o mundo, a um entendimento muito semelhante da realidade”.[13] Neste ponto, deve ficar claro que essas perspectivas não são universais, e as exceções são óbvias: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, cada qual a sustentar um entendimento radicalmente diferente da realidade. Mas de onde vem esse entendimento, senão de sua fonte de literatura comum, ou seja, a Bíblia hebraica?

Nesse ponto, eu tenho que admitir um preconceito pessoal em favor da perspectiva de Oswalt. Sempre que começava a fazer estudos bíblicos, eu o fazia em uma conceituada universidade protestante. Os professores falavam de Gênesis como sendo mítico e compartilhando incontáveis características ​​com os mitos do Antigo Oriente. Dessa forma, assumi a verdade de suas declarações. Devo admitir, porém, que foi chocante quando realmente comecei a ler a literatura do Antigo Oriente. As diferenças eram profundas e muitas das semelhanças sugeridas pareciam ad hoc. Considerando que eu podia entender algumas dessas semelhanças como polêmicas veladas contra outras literaturas do Antigo Oriente, ver as narrativas do Gênesis como uma progressão originária desses escritos parecia (e continua a parecer) impossível. Por quê? Oswalt faz um trabalho maravilhoso ao delinear a perspectiva do Antigo Testamento sobre as origens, para mostrar o quão distinta é essa visão de mundo em comparação com a visão de mundo de outros escritos do Antigo Oriente.

Considerando que os mitos do Antigo Oriente projetam uma visão de mundo de continuidade, Oswalt argumenta que a Bíblia apresenta uma visão de mundo de transcendência e de revelação. Ele enumera as características comuns do “pensamento bíblico” como o monoteísmo, a iconoclastia, a prioridade espiritual sobre o material, uma criação através de processo, uma visão elevada de Deus e da humanidade, uma visão redefinida da ética sexual (dessacralização), a proibição de magia, uma demanda por obediência ética e a importância da interação de Deus com a humanidade na história. Claramente, essas distinções são incompatíveis com a visão de mundo de continuidade descrita acima. Cada uma delas decorre do pressuposto básico de que há um Deus transcendente, fora e além da criação, o que alguns teólogos chamam de distinção Criador-criatura. Esse Deus não pode ser manipulado por magia, nem pode ser representado por qualquer coisa dentro de Sua criação, quer seja um ídolo quer seja a própria natureza. Se Ele Se revelar, Seus comandos serão inalteráveis ​​e definirão os limites para a existência dentro da criação, etc. Uma vez que a Bíblia hebraica fortalece essa visão de mundo, não é surpreendente ver que ideias típicas do Antigo Oriente, como o culto da fertilidade, a idolatria e a divindade de coisas finitas sejam totalmente rejeitadas.

Quais são as implicações dessas distinções de Oswalt para a apologética cristã? Primeiro, chamar as narrativas do Gênesis de mito requer redefinir o termo “mito” de uma forma que o torna de nenhum valor. Em segundo lugar, isso significa que as diferenças entre a Bíblia e os mitos do Antigo Oriente são mais relevantes do que as semelhanças. Oswalt mostra que há muitas semelhanças, mas há descontinuidade na forma como essas formas, ideias semelhantes são usadas ​​entre a Bíblia hebraica e literatura do Antigo Oriente. Ele diz: “[A Bíblia] não é única porque não faz parte do seu mundo, nem é única porque seus escritores eram incapazes de relacionar aquilo que eles dizem com seu mundo. […] Ao contrário, ela é única justamente porque, sendo uma parte de seu mundo e utilizando conceitos e formas de seu mundo, pode projetar uma visão da realidade diametralmente oposta à visão desse mundo.”[14]

Referências:

  1. Há uma série de livros que desconstroem esse tipo de reducionismo, alguns remontando ao início do século 20, como os clássicos The Everlasting Man, de G. K. Chesterton, e The Abolition of Man, de C. S. Lewis. Contribuições mais recentes têm praticamente eliminado qualquer plausibilidade do autêntico reducionismo materialista. Ver, por exemplo, Mind and Cosmos, de Thomas Nagel, ou Darwin’s Pious Idea, obra magistral de Conor Cunningham. Um de meus favoritos é Life is a Miracle, de Wendell Berry.
  2. Postagem no blog de Rachel Held, “Can God speak through myth?” (Pode Deus falar através de mito?), encontrada em: http://rachelheldevans.com/blog/bible-myth
  3. Peter Enns era abertamente evangélico no momento da publicação de seu livro, mas desde então tem adotado uma postura mais agnóstica em relação a muitas doutrinas evangélicas, rejeitando outras. Seu ponto de vista atual parece ser mais bem definido como pós-evangélico, embora tal classificação seja bastante abrangente.
  4. O pensamento seguiu em grande parte a perspectiva conjecturada de Nietzsche em On the Genealogy of Morality(Sobre a Genealogia da Moral). Para a Escola, e para Nietzsche, as origens da religião e da moralidade dos escravos estão intimamente ligadas.
  5. O livro de Wright, The Bible Against Its Environment(A Bíblia Contra seu Ambiente), critica a ideia evolutiva, defendendo a unicidade do texto bíblico e sua visão de mundo contra outras literaturas e perspectivas do Antigo Oriente Próximo.
  6. João Oswalt, The Bible Among the Myths(A Bíblia Entre os Mitos), Kindle ed. Harper Collins, 2010, loc. 101. As histórias de criação do Antigo Oriente Próximo da “biblioteca” ugarítica foram encontradas principalmente entre 1928 e 1958; o Enuma Elish foi encontrado em 1849, assim como também o Atrahasis; a Epopeia de Gilgamesh, em 1853, com muitas das histórias egípcias sendo conhecidas ainda mais cedo.
  7. Uma contribuição recente que vale a pena ler é Do Historical Matters Matter to Faith?(Questões Históricas Importam Para a Fé?),  editado por James Hoffmeier e Dennis Magary.
  8. Oswalt, loc. 406.
  9. Ibid., loc. 579.
  10. Ibid., loc. 660.
  11. Ibid., 700.
  12. Ibid., 782.
  13. Ibid., loc. 893. Alguns têm argumentado recentemente que o ateísmo contemporâneo também se encaixa nesse paradigma contínuo, em que a matéria é eterna e caótica (sem finalidade última originária, como uma bolha no vácuo quântico), e os poderes da realidade são reduzidos às forças brutas da natureza. Ver este artigo recente de Ben Suriano, “On what could rightly pass for a fetish (Sobre o que poderia passar certamente por um fetiche), encontrado aqui
  14. Ibid., loc. 1.700.

Fonte: Kyle Essary (apaixonado pelo estudo das Escrituras, especialmente do Antigo Testamento. Ele e sua família vivem no sudeste da Ásia, onde se esforçam para servir Àquele para quem o Antigo Testamento aponta) em Apologetics 315. Traduzido e publicado por Ler Para Crer.

Seria Deus um “monstro moral”?

moralmonster1Paul Copan (Ph.D, Marquette University) é professor de Filosofia e Ética na Palm Beach University, na Flórida, EUA. É autor e editor de dezenas de livros na área de apologética cristã e filosofia da religião. Além de diversos artigos publicados em importantes publicações na área de filosofia, como a Philosophia Christi, ele também é membro da Evangelical Society of Philosophy. Is God a Moral Monster? é uma resposta para as diversas acusações contra o caráter de Deus como exposto nas páginas do Antigo Testamento, principalmente da parte dos chamados neoateus. Com a publicação da obra Deus, um Delírio, de Richard Dawkins (2005), e Letter to a Christian Nation, de Sam Harris (2007), o Antigo Testamento começou a ser visto pelo público secularizado como uma mola propulsora para a violência e a intolerância. Tópicos ali encontrados como homofobia, genocídio, machismo e fundamentalismo religioso são alguns dos motivos – aparentemente verdadeiros – que têm levado muitos a rejeitar qualquer princípio ético das páginas das Escrituras Hebraicas.

Apesar de Copan não ser um especialista em Antigo Testamento (AT) e documentos do Antigo Oriente Médio (AOM), sua obra foi classificada por Richard Davidson, do departamento de AT da Andrews University, em Michigan, EUA, como “a mais poderosa e coerente defesa do caráter de Deus no AT diante dos ataques dos neoateus” (p. ii), e de “a melhor defesa da ética do Antigo Testamento” (p. i), por Gordon Wenham, professor emérito de AT na University of Gloucestershire.

A obra está dividia em quatro partes. Na primeira (p. 13-24), Copan oferece um breve histórico sobre o movimento conhecido como neoateísmo, bem como suas críticas à religião bíblica. Já na segunda (p. 25-54), são abordados tópicos como a suposta arrogância e o ciúme de Deus em Sua aliança com Israel. Além desses assuntos, Gênesis 22 – um capítulo que tem sido muito utilizado para descrever a “brutalidade” de Yahweh – também foi analisado à luz do contexto do Antigo e do Novo Testamentos.           

A terceira seção (p. 55-206) é a principal do livro, onde tópicos mais espinhosos são abordados, tais como Heiligkeitsgesetz, o Código de Santidade (Levítico 17-26), no qual, inclusive, encontramos leis relacionadas com práticas homossexuais; as leis que regulamentavam a escravidão em Israel; e a questão da matança dos cananeus. Paul Copan fez um excelente trabalho comparando material bíblico disponível nas páginas do AT com documentos de povos do AOM trazidos à luz pelas descobertas arqueológicas dos últimos 200 anos.           

Já a quarta e última seção (p. 209-222) lida com o fundamento teísta para a moralidade humana. Além de apresentar a fragilidade de uma noção de certo e errado sem um Ser transcendente, Copan ainda apresenta brevemente como o cristianismo foi responsável por revolucionar o mundo ocidental graças a importantes contribuições humanitárias, filosóficas, literárias, artísticas e até musicais, uma resposta sutil ao subtítulo da obra do ateu Christopher Hitchens, deus não é Grande: Como a Religião Envenena Tudo (2007).

Gostaria de destacar dois pontos que ressaltam a importância da obra de Copan. Primeiro, a constante comparação entre diversas práticas do AT com práticas legais de diversos povos do AOM. Para muitos leitores não treinados nesse ramo de estudo, o trabalho de Copan surge como uma excelente ferramenta para a constatação de uma faceta mais humanitária de Israel em contraste com os povos da Mesopotâmia, Canaã e até o próprio Egito.       

A título de ilustração, Copan fez amplo uso da literatura conhecida sobre as leis que regulamentavam a escravidão em Israel (Êx 21), e a apresentou nos capítulos 12-14. Desde códigos de leis hititas, passando por documentos cananitas do 2º milênio a.C., até uma análise minuciosa do texto hebraico do AT, percebe-se entre os israelitas um caráter mais humanitário quanto à escravidão. Na lei mosaica, sequestrar alguém para ser vendido como escravo era um crime punido com pena capital (Êx 21:16). Um escravo hebreu deveria trabalhar apenas seis anos para pagar sua dívida, sendo liberto no sétimo ano sem pagar nada (Êx 21:2). Além disso, ele deveria receber do seu proprietário alguns animais e alimentos para começar a vida novamente (Dt 15:13, 14). Durante seu período de serviço, o(a) escravo(a) teria um dia de folga semanal, o sábado (Êx 20:10). Não só isso, mas em Israel, o escravo e seu senhor eram tratados em pé de igualdade (cf. Jó 33:15, 16). Um avanço humanitário significativo e totalmente desconhecido até aquele momento em todo o território do AOM.

Segundo, é a apresentação do ambiente social e religioso de Canaã durante o 2º e o 1º milênio a.C. Práticas como sacrifícios humanos, prostituição, incesto e zoofilia eram ingredientes comuns naquelas culturas. Tais atividades são examinadas com atenção pelo autor e são apresentadas como motivos reais para o “genocídio” cananeu. Digno de nota são suas considerações sobre a “retórica exagerada no Antigo Oriente Médio” (p. 169-185), onde o autor argumenta, citando diversos documentos arqueológicos, que a linguagem de completa destruição (heb. herem) não era tão completa assim.           

Finalmente, existe um tópico que demonstram certa fragilidade argumentativa do autor. Nas páginas 79-81, Copan faz menção das leis dietéticas de Levítico 11, a distinção de animais puros e impuros. O autor fez uso de Marcos 7:19 e Atos 10:10-16 para afirmar que no Novo Testamento todos os alimentos são puros. Ora, o assunto em Marcos 7 é ahalakah, a tradição dos anciãos, e não as leis de saúde de Levítico 11. Já em Atos 10, o assunto não é alimentação, mas, sim, o preconceito que os judeus nutriam contra os gentios (cf. At 11). O autor demonstrou estar bem familiarizado com publicações de eruditos adventistas como Richard Davidson, Roy Gane e Barna Magyarosi. Sendo assim, ele poderia ter levado em consideração a tese doutoral de Jirí Moskala, “The Laws of Clean and Unclean Animals of Leviticus 11: Their Nature, Theology, and Rationale (An Intertextual Study)” (Adventist Theological Society Publications, 2000). Sua compreensão de Levítico 11 poderia ser mais equilibrada, se essa obra tivesse sido consultada.

Além de uma bem documentada referência bibliográfica, o livro contém um guia de estudo para cada um dos seus capítulos, tornando-se uma ferramenta útil para grupos de estudo, seminários em igrejas e aulas para alunos do ensino médio.

Fonte: Luiz Gustavo Assis via Criacionismo.

A Trindade: por que é importante?

Não me lembro de ter ouvido um sermão sobre a Trindade em minha infância ou adolescência. Na verdade, eu nunca tive nenhuma discussão prolongada sobre essa doutrina, senão em meu último ano da faculdade de teologia. Num seminário sobre a Doutrina de Deus, o professor nos levou a uma discussão detalhada da história dessa doutrina e suas bases bíblicas. Mas, devo confessar que tudo me pareceu um pouco enigmático e impraticável. Minha trajetória teológica, porém, iria pouco a pouco se transformar numa

É possível compreendê-la!

É possível compreendê-la!

preocupação que agora se tornou paixão. Minha indiferença transformou-se na convicção definida de que a doutrina da Trindade é a declaração teológica central do pensamento e prática cristãos. Na verdade, longe de ser um mistério irrelevante, ela expressa a essência daquilo que os cristãos desejam confessar acerca da natureza de Deus e Seu propósito para a felicidade humana.

Pensar em teologia envolve dois passos básicos: Primeiro, o “quê” da doutrina. A fase “quê” envolve duas facetas importantes: (1) afirmar claramente a doutrina; e (2) avaliar a base bíblica para o seu ensino. Segundo, as reflexões sobre o “e então?” Essa fase procura clarificar pontos tais como as implicações teológicas e práticas da doutrina – especialmente sua coerência com outros ensinos cristãos, e a questão da salvação pessoal ou reconciliação com Deus.

O “quê” da Trindade A crença fundamental adventista do sétimo dia de número dois define a doutrina da seguinte forma: “Há um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, uma unidade de três Pessoas coeternas”.1No que tange a essa declaração, tanto a igreja cristã primitiva quanto o movimento adventista do sétimo dia tiveram que lidar com vários desafios. A questão de Deus o Pai nunca foi controversa, em virtude da longa tradição do ensino cristão ortodoxo. Enquanto a vasta maioria dos cristãos afirma a eterna divindade do Pai, sempre existiram controvérsias em torno das questões acerca da completa e eterna divindade do Filho, a personalidade do Espírito Santo e a profunda unidade do Trio. O espaço não nos permite uma discussão pormenorizada da evidência bíblica em prol da unidade triúna de Deus, mas se pudermos estabelecer a plena divindade do Filho e do Espírito, parece lógico que haverá uma profunda unidade com o Pai. Assim, os cristãos têm confessado que há um Deus (monoteísmo) que Se manifesta em amor como uma unidade tri-pessoal (não três Deuses, ou triteísmo).

A plena divindade do Filho Basicamente há três tipos fundamentais de evidências bíblicas que mostram que Jesus era inerentemente divino, tendo a mesma natureza e substância do Pai.2

1. Jesus é expressamente chamado de Deus no Novo Testamento. Hebreus 1 compara Jesus com os anjos. Nos versos 7 e 8, o autor diz que enquanto Deus fez os anjos como “ventos, e a Seus ministros como labaredas de fogo” (verso 7, ARA), acerca do Filho diz: “O Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (vs. 8, ARA). O versículo 8 é uma das sete vezes em que a palavra grega theos (“Deus”) é diretamente usada com relação a Jesus no Novo Testamento (as outras seis são João 1:1, 18; 20:28; Romanos 9:5; Tito 2:13; e II Pedro 1:1).

Sejamos bem claros quanto ao que os escritores do Novo Testamento, especialmente o autor de Hebreus, estão dizendo nesses versos. Eles estão se referindo a Jesus como “Deus”, e em Hebreus, o escritor está interpretando o Antigo Testamento mediante a aplicação do Salmo 45:6 a Jesus que originalmente se referia a Deus, o Pai.

2. Jesus aplica a Si mesmo títulos e atribuições divinos. O exemplo mais singular é encontrado em João 8:58: “Respondeu Jesus: Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou!” (NVI). Muito simples: o que Jesus estava dizendo é que Ele não era outro senão o Deus do Êxodo, e fez isso aplicando a passagem de Êxodo 3:14 a Si mesmo: “Disse Deus a Moisés: Eu Sou o que Sou” (NVI).

Além disso, esse “Deus” que fala em Êxodo 3:14 prossegue e esclarece Sua identidade: “O Senhor, o Deus dos seus antepassados, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó” (verso 15, NVI). Em outras palavras, Jesus não apenas reivindicou ser o Deus do Êxodo, mas também o “Senhor” (Yahweh) dos patriarcas. Não nos surpreende que os fariseus “apanharam pedras para apedrejá-Lo” (João 8:59, NVI) – a punição prevista no Antigo Testamento para blasfêmia (veja João 5:17, onde Jesus diz a mesma coisa).

3. A aplicação dos nomes divinos a Jesus pelos escritores do Novo Testamento. Em Hebreus 1:10-12, a Inspiração atribui o supremo título do Deus do Antigo Testamento (JHWH ouYahweh) a Jesus. O autor de Hebreus faz isso ao aplicar o Salmo 102:25-27 a Cristo. Isso não é incomum entre os escritores do Novo Testamento, mas o que chama a atenção nessa aplicação é que esse Salmo originalmente se refere ao “Senhor” (Yahweh) do Antigo Testamento. Assim, o autor do Novo Testamento se sente muito à vontade ao aplicar a Jesus passagens que originalmente se referiam ao auto-existente Deus de Israel. A clara implicação é que Jesus é o “Senhor” Jehovah (JHWH) do Antigo Testamento. Apocalipse 1:17 descreve o uso semelhante de um título do Antigo Testamento – “o Primeiro e o Último.”

A plena divindade do Espírito Santo As Escrituras fornecem inúmeras linhas de evidência que testificam da natureza divina do Espírito. A mais significativa vem do livro de Atos, na trágica história de Ananias e Safira. Esse casal, às escondidas, voltou atrás nos votos sagrados que havia feito a Deus. Quando eles vieram publicamente depositar a oferta parcial aos pés dos apóstolos, eles caíram mortos repentinamente. Pedro explicou de forma bem objetiva o que haviam feito: Vocês mentiram ao Espírito Santo. A isso se seguiu a impressionante revelação de que eles não haviam mentido aos homens, “mas a Deus” (Atos 5:3-4). A implicação óbvia é que o Espírito Santo é um ser divino.

A próxima linha de evidência é encontrada nas muitas passagens que descrevem a obra do Espírito em termos daquilo que é exclusivo de Deus. O mais claro exemplo está em I Coríntios 2:9-11. Paulo declara que seus leitores podem ter algum conhecimento daquilo “que Deus preparou para aqueles que O amam” (vs. 9, NVI). E como tal conhecimento é possível? “Deus o revelou a nós por meio do Espírito” (vs. 10). E como é que o Espírito está a par desse conhecimento? “O Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as coisas mais profundas de Deus. Pois quem conhece os pensamento do homem, a não ser o espírito do homem que nele está? Da mesma forma, ninguém conhece os pensamentos de Deus, a não ser o Espírito de Deus” (vss. 10-11, NVI).

O que essa passagem sugere é o seguinte: Se alguém deseja saber “o que é verdadeiramente humano”, deve conseguir tal informação de um ser humano. Aquilo, porém, que é verdade no nível humano, muito mais o é no divino: “Da mesma forma, ninguém conhece os pensamentos de Deus, a não ser o Espírito de Deus” (vs. 10). Apenas um Ser divino pode verdadeiramente conhecer o que se passa na mente e no coração de outro Ser divino.

O “e então?” da Trindade Qual é o significado do “e então?” da plena divindade do Filho e do Espírito? Antes de abordar essa importante questão, precisamos lidar com um ponto que incomoda a muitos: a aparente falta de lógica na confissão de que três são iguais a um. Esse ponto incomoda especialmente a mente racionalista de muitos estudantes universitários no Ocidente e nossos amigos muçulmanos fortemente monoteístas.

A objeção lógica. Millard Erickson sugere que a razão humana não pode tolerar a estranha matemática trinitariana na qual “três = um.” Se você for a um supermercado, pegar três pães e tentar persuadir o caixa de que eles são na verdade um e que você não tem que pagar senão apenas o valor de um, o caixa poderá ser tentado a chamar imediatamente os seguranças.3

A primeira resposta à lógica do pensamento trinitariano é admitir que estamos lidando com o mais profundo dos mistérios. Sabemos que em relacionamentos de amor parece desenvolver-se uma profunda unidade social e emocional. Diríamos então que os relacionamentos de amor são totalmente ilógicos e incoerentes? Penso que não. E essa parece ser a melhor maneira de explicar o mistério da Trindade e Sua unidade plural.

Outra vez Erickson sabiamente indica o caminho para uma resposta aceitável: “Nós, portanto, sugerimos pensar na Trindade como uma sociedade de pessoas que, contudo, são um só Ser. Conquanto essa sociedade de pessoas tenha dimensões que não encontramos entre seres humanos quanto ao seu inter-relacionamento, existem alguns paralelos que ajudam a esclarecer o assunto. Amor é o relacionamento aglutinante dentro da Divindade, que une cada uma das pessoas às outras.”4

Erickson, então, naturalmente apela para I João 4:8, 16: “Deus é amor.” Compreendemos realmente as profundezas dessa declaração inspirada que é tão desconcertante em sua simplicidade? Gostaria de sugerir que essas três palavras têm uma profunda contribuição a fazer à nossa compreensão de um Deus que preexistiu eternamente em estado de “unidade” trinitariana. “A declaração ‘Deus é amor’ não é uma definição de Deus, nem sequer a declaração de um atributo entre outros. Ela é uma caracterização bem básica de Deus.”5

Para os cristãos trinitarianos, a pergunta fundamental acerca de Deus está direta e completamente relacionada com a questão do Seu amor. E se Deus não for “amor” no âmago de Seu ser, então qualquer questão acerca de Sua natureza imediatamente se torna irrelevante do ponto de vista bíblico. Nós, contudo, pensamos que o amor é a caracterização mais fundamental de Deus. Se Deus é verdadeiramente, na Sua essência, o Deus de “amor” (João 3:16; I João 4:8), então temos que considerar algumas implicações.

Pode Alguém que existe desde a eternidade e que nos fez à Sua imagem de amor, ser realmente chamado amor se Ele existir tão-somente como um ser solitário ou unitário? Não é o amor, especialmente o amor divino, possível apenas se Aquele que fez nosso Universo for um ser plural que estava exercitando amor dentro de Sua pluralidade divina (trinitária) desde toda a eternidade passada? Não é o amor verdadeiro e altruísta possível apenas se ele proceder de um tipo de Deus que, por natureza, sempre será um Deus de amor como uma Trindade social?

Sinto-me fortemente inclinado a afirmar que Deus é uma Trindade de amor e que Seu amor encontrou a revelação mais profunda na obra criadora, e na encarnação, vida, morte e ressurreição do plenamente divino Filho de Deus. A unidade trinitária de Deus, por fim, não é ilógica. Na verdade, ela é a fonte da única lógica que faz sentido absoluto – um amor que se auto-sacrifica, que é mutuamente submisso e um eterno canal da graça de poder criador e redentor.

Tal amor infinito, porém, deve ser comunicado de forma prática a seres humanos finitos e pecadores. E é aqui que o “e então?” da plena divindade do Filho e do Espírito exerce um papel dramático na criação e na redenção.

Implicações da divindade de Cristo Primeiro, antes que a Trindade pudesse fazer com que a vida e a morte salvíficas de Cristo de fato gerassem a salvação de pecadores, havia a necessidade urgente de revelar aos seres humanos alienados pelo pecado como Deus realmente é. E o único Ser que poderia oferecer tal surpreendente revelação da natureza divina era Deus mesmo. E essa foi a missão primária de Jesus, o divino Filho de Deus.

Agora, em se tratando realmente da provisão para a salvação, especialmente em Sua morte expiatória, apenas Alguém que é igual a Deus, por meio de Espírito Santo, seria poderoso o bastante para recriar seres humanos deformados pelo pecado à semelhança do caráter divino. Em outras palavras, apenas o divino Filho poderia gerar a conversão ou o novo nascimento, e ocasionar a mudança de caráter que faz com que o homem reflita a semelhança divina. Resumindo: apenas o Filho, que é o amor encarnado, poderia manifestar e produzir tal amor transformador.

A plena divindade do Espírito Como acontece com a divindade do Filho, as implicações teológicas da divindade do Espírito derivam dos pontos relacionados à intenção de Deus de redimir a humanidade pecadora.

Com toda a certeza, se Aquele que é igual ao Pai em natureza e caráter podia oferecer um sacrifício efetivo pelo pecado, então, da mesma forma, somente Alguém (o Espírito) que é plenamente divino podia comunicar de fato a eficácia desse sacrifício a seres humanos pecadores. Outra vez, é necessário um Espírito completamente divino para revelar ao pecador a obra do Filho completamente divino (I Coríntios 2:7-12).

Somente o Espírito Santo podia trazer à humanidade decaída o convertedor e convencedor poder do grande amor de Deus, poder que gera contrição e conversão. Somente Alguém que tem estado em eterna e estreita ligação com o coração de Deus e do Filho, o coração de um amor que se auto-sacrifica, pode comunicar plenamente tal amor à humanidade perdida.

Somente Alguém que atuou com o Filho na criação poderia estar equipado para operar a recriação nas almas arruinadas pelas forças destrutivas de Satanás e do pecado (Rom 8:10-11).

Somente Alguém que pôde estar em plena sintonia com o coração do ministério encarnado de Jesus, e ainda assim, ao mesmo tempo, ser capaz de estar em todos os lugares (onipresença de Deus), podia representar de maneira hábil a presença pessoal e redentora de Cristo perante todo o mundo. O único Ser que podia fazer tal coisa é o Espírito Santo, um Ser pessoal sempre e todo-presente.

Um apelo Gostaria de desafiar cada leitor a ponderar com oração e cuidado sobre a Trindade e Suas profundas implicações para a vida e o destino que o Deus da Bíblia oferece à humanidade. Essa doutrina satisfaz às necessidades do moderno anseio por uma reflexão racional sobre o problema divino/humano, e ao mesmo tempo oferece um mistério verdadeiramente cativante para os gostos mais relacionais dos pós-modernistas. Além disso, o pensamento e a vida trinitarianos oferecem uma visão de relacionamentos que vivem em amor, os quais refletem a realidade mais profunda oferecida por Aquele que fez o mundo em amor e está buscando redimi-lo do pecado (que é contrário ao amor – a mais profunda antítese do amor divino).

Além disso, não consigo pensar num melhor ponto da discussão quando se busca abordar as preocupações monoteísticas de nossos amigos muçulmanos. Se o amor de Jesus, o lado humano do amor da Trindade, não convencer, nada será capaz de fazê-lo. Os recursos do amor que flui do Pai, encarna-se em Cristo e é comunicado pela Pessoa plenamente divina do Espírito Santo proporcionam a mais rica visão teológica que se pode imaginar para o destino de um mundo perdido.

Fonte: Woodrow W. Whidden (Ph.D. pela Universidade Drew) é professor de Religião na Universidade Andrews, Berrien Springs, Michigan, E.U.A. via Bíblia e Ciência.

Os dias da criação são literais?

Segundo Gerhard F. Hasel, falecido professor de Teologia Bíblica e Antigo Testamento na Andrews University, nos Estados Unidos, a semântica (estudo linguístico dos significados de palavras, frases, cláusulas, etc.) chama atenção para a questão crucial do significado exato da palavra hebraica yom. Poderia a designação “dia” (yom) em Gênesis 1 ter um significado figurativo? Ou deve ela ser entendida, com base nas normas da semântica, como um dia literal de 24 horas? Algumas pessoas, numa tentativa de evitar maiores problemas com o evolucionismo, aplicam a teoria dos dias-eras ao relato de Gênesis 1. Para elas, os seis dias da criação são, na verdade, longos períodos de tempo. Será que isso é possível? Antes de mais nada, é preciso deixar claro que o termo yom em Gênesis 1 não se liga a qualquer preposição; não é usado em uma relação construtiva; e não tem nenhum indicador sintático que seria de esperar para um uso extensivo não literal.

Nas Escrituras, a palavra yom invariavelmente significa um período literal de 24 horas, quando precedida por um numeral, o que ocorre 150 vezes no Antigo Testamento. Obviamente, no relato da criação existe sempre um numeral precedendo aquela palavra – primeiro, segundo, terceiro… sétimo dia – e essa regra para a tradução de yom como um dia literal aplica-se neste caso. O que parece ser significativo também é a ênfase dada à sequência dos numerais 1 a 7, sem qualquer hiato ou interrupção temporal.
Esse esquema de sete dias (seis dias de trabalho seguidos por um sétimo dia de repouso) interliga os dias da criação como dias normais em uma sequência consecutiva e ininterrupta. O relato da criação em Gênesis 1 não somente liga cada dia a um numeral sequencial, como também estabelece as fronteiras do tempo mediante a expressão “tarde e manhã” (versos 5, 8, 13, 19, 31). 
A frase rítmica “e houve tarde e manhã” provê uma definição para o “dia” da criação; e, se o “dia” da criação constitui-se de tarde e manhã, é, portanto, literal. O termo hebraico para “tarde” – ‘ereb – abrange toda a parte escura do dia (ver dia/noite em Gênesis 1:14). O termo correspondente, “manhã” (em hebraico boqer), representa a parte clara do dia. “Tarde e manhã” é, portanto, uma expressão temporal que define cada dia da criação como literal. Não pode significar nada mais. 
Outro tipo de evidência interna no Antigo Testamento para o significado dos dias resulta de duas passagens sobre o sábado no Pentateuco, que se referem aos dias da criação. Elas informam como os dias da criação foram compreendidos por Deus. A primeira passagem faz parte do quarto mandamento do Decálogo, e está registrada em Êxodo 20:9-11. A ligação com a criação transparece no vocabulário (“sétimo dia”, “céus e terra”, “descansou”, “abençoou”, “santificou”) e no esquema “seis mais um”. 
As palavras usadas nos Dez Mandamentos deixam claro que o “dia” da criação é literal, composto por 24 horas, e demonstram que o ciclo semanal é uma ordenança temporal da criação. Aliás, como explicar a origem do ciclo semanal, se não pela criação em seis dias literais seguidos do repouso do sétimo dia? A semana não está vinculada a nenhum movimento ou fenômeno astronômico, como os dias (rotação da Terra), os anos (translação) e os meses. A palavra divina, que promulga a santidade do sábado, toma os seis dias da criação como sequenciais, cronológicos e literais. Dizer o contrário, portanto, é ir contra o Criador. 
Por fim, uma última consideração: a criação da vegetação ocorreu no terceiro dia (ver Gênesis 1:11 e 12). Grande parte dessa vegetação parece ter necessitado de insetos para a polinização. Mas os insetos só foram criados no quinto dia (verso 20). Se a sobrevivência desses tipos de plantas, que necessitam de insetos e outros animais para a polinização, dependesse deles para a reprodução, então haveria um sério problema se o “dia” da criação significasse “era”. 
Ainda mais: a teoria dos dias-eras exigiria um longo período de iluminação e outro de escuridão para cada uma das supostas épocas. Isso, é claro, seria fatal tanto para as plantas quanto para os animais. Os dias da criação devem ser entendidos como literais e não como representando longos períodos de tempo. Argumentar em contrário é forçar o texto bíblico a dizer o que não diz. 
Fonte: Adaptado de Folha Criacionista n° 53, setembro de 1995, p. 26-30 – Sociedade Criacionista Brasileira via Criacionismo.

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Hipatia e a ignorância histórica (não só de Hollywood…)

(Traduzido do inglês para o português de Portugal!)

Parece que alguns mitos pseudo-históricos sobre a História da ciência estão em vias de receber uma injecção no braço, muito graças a um novo filme com o nome “Agora”, do realizador Chileno Alejandro Amenabar. Normalmente, eu ficaria contente por haver alguém que faz um filme centrado em eventos do século 5º (pelo menos um que não seja outra fantasia ao estilo do “Rei Artur”). Afinal, não se dá o caso de haver uma falta de histórias memoráveis dessa altura para contar.

E normalmente eu ficaria ainda mais contente se eles se dessem ao trabalho de fazer as coisas de modo a que realmente tivessem a aparência do século 5º, em vez de assumirem que, como os eventos ocorrem dentro do Império Romano, todas as pessoas têm que andar de togas, ter cortes de cabelo e lorica segmentata. E eu ficaria especialmente contente se eles não só estivessem a fazer estas duas coisas, mas tivessem também Rachel Weisz no papel principal visto que ela é uma excelente actriz e, convenhamos, é bem bonita.
Então porque é que eu não estou contente? Porque Amenabar escolheu escrever e dirigir um filme em torno da filósofa Hipatia, e perpetuar alguns mitos veneráveis do Iluminismo ao transformá-los numa história em torno da ciência versus fundamentalismo.Como ateu, claramente não sou fã do fundamentalismo – mesmo da variedade com 1500 anos (embora as manifestações modernas tendem a ser aquelas que nós temos que manter um olhar mais atento).
E como um historiador da ciência amador, fico mais do que contente com a ideia dum filme que passa a mensagem de que, sim, havia uma tradição de pensamento científico antes de Mewton e de Galileu. Mas Amenabar pegou na (sem dúvida, fascinante) história do que ocorria em Alexandria durante a vida de Hipatia e transformou-a numa desenho animado, distorcendo a História durante este processo.O que se segue foi retirado da conferência de imprensa feita de forma a coincidir com a exibição do filme em Cannes esta semana:
Desempenhada pela actriz Britânica vencedora dum Óscar, Rachel Weisz, no filme Hipatia é perseguida pelo facto da sua ciência colocar em causa a fé Cristã, como também pelo facto do seu estatuto como uma mulher influente. Desde confrontos sangrentos até aos massacres, a cidade descende para um estado de contenda intra-religiosa, e os Cristãos vitoriosos viram as suas costas ao rico legado cientifico defendido por Hipatia.
Portanto, é-nos dada a teoria de que Hipatia foi vítima de perseguição e, assumo eu, morta por causa da “sua ciência . . . ao colocar em causa a fé Cristã”. E porquê ter um filme com apenas um mito histórico quando se pode ter um filme com dois mitos históricos? “Agora” começa com a destruição da segunda Biblioteca de Alexandria, levada a cabo por Cristãos e por Judeus – depois da primeira famosa Biblioteca ter sido destruída por Júlio César.
Pelo menos ele fez o seu trabalho de casa de modo suficiente para se aperceber que o declínio da Grande Biblioteca foi um deteriormento longo e lento – e não um evento catastrófico singular. Mas mesmo assim, ele agarra-se ao mito de Gibbon de que uma turba Cristã foi de alguma forma responsável. E de uma forma inteligente, ele inventa uma “segunda biblioteca de Alexandria” de modo a que ele possa responsabilizar os Cristãos.
Naturalmente, tudo isto tem uma moral inevitável:
O director disse também que ele via o filme como uma parábola da crise na Civilização Ocidental. “Digamos que o Império Romano são os Estados Unidos de agora, e Alexandria é o que a Europa é hoje – a antiga civilzação e o antigo background cultural. E o império está em crise, crise que afecta todas as provincias. Estamos a falar duma crise social, crise económica, obviamente, e crise cultural. Algo não se ajusta na nossa sociedade. Sabemos que algo irá mudar – não sabemos bem o quê ou como, mas sabemos que algo está a chegar ao fim.”
Os limites desta analogia não são bem claros. Se a Europa é Alexandria e os EUA são Roma, quem é Hipatia? E quem são os fundamentalistas assassinos? Suspeito que a resposta seja “os Muçulmanos”. O artigo do jornal La Times sobre a exibição do filme parece ser dessa opinião:
O filme é ainda mais convincente quando Amenabar revela a civilização de Alexandria, outrora estável, a ser sobrepujada pelo fanatismo (provavelmente porque os zelotas Cristãos, barbudos e vestidos com robes pretos que roubam a Biblioteca e ocupam a cidade, terem uma inquietante semelhança com os ayatollas e os Talibás de hoje).
Por mais longe que Amenabar queira avançar com a sua parábola, a sua mensagem geral é clara – Hipatia era a racionalista e a cientista e foi morta por fundamentalistas que se sentiam ameaçados com o conhecimento e com a ciência; e isto deu início à Idade das Trevas.
HIPATIA O MITO
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Não se dá o caso de haver algo de novo ou original nisto – há já algum tempo que Hipatia tem sido usada como uma mártir pela ciência por aqueles que não querem de maneira nenhuma estar associados com uma apresentação correcta da História. Tal como Maria Dzielska detalhou no seu estudo de Hipatia, na história e como mito, “Hipatia de Alexandria“, virtualmente todas as eras desde a sua morte que ficaram a saber da história, apropriaram-se dela e fizeram as coisas de modo a que esta história servisse para algum propósito polémico.
Perguntam quem foi Hipatia e irão algo do tipo “Ela era aquela filósofa pagã que foi rasgada em pedaços por monges (ou, de uma forma mais geral, por Cristãos) em Alexandria, no ano de 415”. Esta resposta padrão irá basear-se não em fontes antigas, mas sim em literatura histórica e de ficção . . . A maior parte destes trabalhos representam Hipatia como uma vítima inocente do fanatismo nascente do Cristianismo, e o seu assassinato como uma proibição da liberdade de investigação (Dzielska, p. 1)
Se alguém me perguntasse isto quando eu tinha 15 anos, provavelmente esta seria a minha resposta visto que eu tinha ouvido falar de Hipatia largamente graças ao astrónomo Carl Sagan e da sua série de TV “Cosmos”. Ainda tenho um fraco tanto por Sagan como pela série “Cosmos” visto que – tal como muitos jovens da altura – despertou o meu amor não só pela ciência, mas para uma tradição humanista da ciência e pela perspectiva histórica do assunto que a tornou muito mais acessível para mim do que fórmulas secas.
Mas as popularizações de qualquer tópico podem criar impressões erradas, mesmo quando o escritor está bem seguro do seu material. E embora Sagan fosse, normalmente, bastante sólido na sua ciência, a sua história era distintivamente mais vacilante, especialmente quando ele tinha um ou mais carrinhos de mão para empurrar.
O capítulo final do livro “Cosmos” é onde Sagan empurra alguns carrinhos de mão. De modo geral, o seu objectivo era admirável – ele ressalva a fragilidade da vida e da civilização, faz algumas condenações à proliferação nuclear – muito relevante e bem sensível nas profundezas da Guerra Fria dos anos 80 – e faz um apelo racional e humanista para a conservação da visão a longo termo para a Terra, para o ambiente e para a nossa herança intelectual. É por esta altura que ele conta a história de Hipatia como uma parábola de advertência; uma história que ilustra o quão frágil a civilização é e o quão facilmente ela pode sucumbir perante as forças da ignorância e da irracionalidade.
Depois de descrever as glórias da Grande Biblioteca de Alexandria, ele nomeia Hipatia como a sua “última cientista”. Ele ressalva então que o Império Romano se encontrava em crise e que “a escravatura havia enfraquecido a antiga civilização da sua vitalidade”; isto não deixa de ser um comentário curioso se levarmos em conta que o mundo antigo sempre se fundamentou na escravatura, o que torna difícil ver como foi que esta instituição subitamente começou a “enfraquecer” a sua “vitalidade” no século Quinto. Depois disto, ele chegou ao ponto principal da sua história:
Cirílo, o Arcebispo de Alexandria, despreza Hipatia devido à sua amizade próxima com o governador Romano, e porque ela era um símbolo de aprendizagem e ciência que se encontrava largamente identificada por parte da igreja primitiva com o paganismo. Correndo um grande risco pessoal, ela continuou a ensinar e a publicar, até que no ano 415, enquanto caminhava para o seu local de trabalho, foi emboscada por uma multidão fanática de paroquianos de Cirilo. Eles arrastaram-na para fora da sua carruagem, tiraram as suas roupas, e, armados com conhas de abalone, esfolaram a carne dos seus osos. Os seus restos mortais foram enterrados, o seu trabalho destruído, e o seu nome esquecido. Cirílo foi santificado. (Sagan, página 366)
Palpito que não fui o único leitor impressionável que achou esta história comovente. Um leitor do estudo de Dzielska, que refuta a versão que Sagan propaga, escreveu um comentário esbaforido na Amazon.com onde declarou:
Cheguei ao conhecimento de quem foi Hipatia através da série de televisão “Cosmos”, de Carl Sagan. Ela foi frequentemente representada como um pilar da sabedoria numa era de dogma crescente. Ao contrário de Sócrates, sabemos muito menos sobre ela, sobre a sua vida e os seus ensinamentos. Ela é lembrada precisamente como uma mártir que foi sacrificada e não executada por uma multidão Cristã literalista inspirada pelo “São” Cirílo visto que aparentemente ela era vista por parte de algumas figuras religiosos e políticas como uma ameaça para o Cristianismo e para a teologia.
Isto na verdade leva-me a questionar se eles chegaram a ler o livro de Dzielska.
Embora Sagan seja o mais conhecido propagandista da ideia de que Hipatia era uma mártir da ciência, ele apenas estava a seguir uma venerável tradição polémica que tem as suas origens no livro de Gibbon “Declínio e Queda do Império Romano”:
Espalhou-se um rumor entre os Cristãos de que a filha de Theom era o único obstáculo para a reconciliação do prefeito com o arcebispo; e esse obstáculo foi rapidamente removido. Nesse dia fatal, na temporada de santa do Quaresma, Hipatia foi arrancada da sua carruagem, despida, arrastada para a igreja, e chacinada de forma desumana às mãos de Pedro o Declamador e uma tropa de fanáticos selvagens e impiedosos; a sua carne foi raspada dos seus ossos com conchas afiadas de ostras e os seus membros trémulos entregues às chamas.
Tal como Gibbon, Sagan faz uma ligação entre a história do assassinato de Hipatia com a ideia de que a Grande Biblioteca de Alexandria foi incendiada por outra multidão Cristã. De facto, Sagan apresenta os dois eventos como se eles tivessem sido subsequentes, declarando que “Os últimos vestígios [da Biblioteca] foram destruídos pouco depois da morte de Hipatia” (p. 366) e que “quando a multidão chegou . . . para incendiar a Biblioteca não havia ninguém para os impedir.” (p. 365)
Nas mãos de Sagan e de outros, tanto a história de Hipatia como a destruição da Biblioteca são contos de advertência sobre o que pode acontecer se baixarmos a guarda e permitir que os fanáticos destruam os defensores e repositores da razão.

A GRANDE BIBLIOTECA E OS SEUS MITOS.
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Sem dúvida que esta é uma parábola poderosa. Infelizmente, ela não está de acordo com a história tal como ela ocorreu. Para começar, a Grande Biblioteca de Alexandria já não existia durante a época de Hipatia. Não é bem claro quando e como ela foi destruída, embora o fogo causado pelas tropas de Júlio César em 48 Antes de Cristo seja a causa mais provável. É também bem mais provável que este e outros fogos tenham feito parte do longo processo de declínio e degradação da colecção.
Curiosamente, dado que sabemos tão pouco sobre ela, a Grande Biblioteca de Alexandria há já muito tempo que tem sido o foco de algumas fantasias bem criativas. A ideia de que continha 500,000 ou 700,000 livros é frequentemente repetida pelos escritores modernos sem qualquer ponta de espírito crítico, embora comparações com o tamanho de outras bibliotecas antigas e estimativas em torno do tamanho necessário para a contenção duma colecção de tais dimensões tornem tal cenário pouco provável. É bem mais provável que ela tivesse cerca de 1/10 dos livros, embora continuasse a ser, de longe, a maior Biblioteca do mundo antigo.
A ideia de que a Grande Biblioteca ainda existia no tempo de Hipatia e que, como ela, foi destruída por uma multidão de Cristãos, foi popularizada por Gibbon, que nunca deixou que a História perturbasse os seus ataques ao Cristianismo. Mas Gibbon tinha em mente um templo conhecido como Serapeum, que não era de todo a Grande Biblioteca. Parece que a dada altura Serapeum tinha uma biblioteca e esta era “filha” da antiga Grande Biblioteca. Mas o problema com a versão de Gibbon é que nenhum relato da destruição de Serapeum por parte do Bispo Teófilo em 391 AD faz menção duma livraria de qualquer livro, apenas a destruição de objectos pagãos e objectos de culto:
Após solicitação de Teófilo, Bispo de Alexandria, o Imperador emitiu uma ordem para a demolição dos templos pagãos da cidade; comandou também que isso fosse levado a cabo sob direcção de Teófilo. Aproveitando esta oportunidade, Teólfilo esforçou-se ao máximo para revelar os mistérios pagãos e causar a que eles fossem alvo de desprezo. Para começar, ele causou a que o Mithreum fosse limpo e exibiu ao público os símbolos dos seus mistérios sangrentos. Depois disso, ele destruiu o Serapeum, sendo os rituais sangrentos do Mithreum posteriormente caricaturados por ele; o Serapeum foi também revelado como cheio de superstição extravagante, e ele causou a que os falos de Príapo fossem transportados pelo meio do fórum. Depois de finalizado este distúrbio, o governador de Alexandria, e comandante supremo das tropas no Egipto, ajudou Teófilo na destruição dos templos pagãos (Socrates Scholasticus, Historia Ecclesiastica, Bk V)
Mesmo os relatos hostis ao Cristianismo, tal como o de Eunápio de Sardes (que testemunhou a demolição), não fazem qualquer referência a qualquer biblioteca ou a livros a serem destruídos. E Amiano Marcelino, que aparentemente visitou Alexandria antes de 391, descreve o Serapeum e menciona que, no passado, ele havia tido uma biblioteca, indicando que por altura da sua destruição já não tinha. A realidade dos factos é que, com não menos do que 5 fontes independentes a mencionar o evento, a destruição do Sarapeum é um dos eventos melhor certificados de toda a história antiga. No entanto, nada é dito sobre a destruição de qualquer livraria ao mesmo tempo que o templo era destruído.
Mesmo assim, o mito duma multidão Cristã a destruir a “Grande Biblioteca de Alexandria” é demasiado suculento para ser resistido por alguns. Devido a isso, o mito permanece como um esteio para a argumentação de que “o Cristianismo causou a Idade das Trevas”, apesar deste alegação não ter qualquer tipo de suporte. Parece que Amenabar também não conseguiu resistir – e é por isso que uma das cenas iniciais do filme mostra uma ansiosa Hipatia lutando para salvar preciosos pergaminhos antes que uma multidão aos gritos empunhando cruzes irrompesse pela porta trancada para destruir a que foi chamada de “a segunda Biblioteca de Alexandria” (presumivelmente ele fala do Serapeum). Isto ocorre bem no princípio do filme, aparentemente preparando as coisas para um conflito entre a ciência e a religião que termina com o assassinato de Hipatia. Sagan, por outro lado, coloca a destruição da Biblioteca depois do seu assassinato.
Na verdade, parece que tal destruição nunca aconteceu nem durante a sua vida e nem depois da sua vida – e que toda a ideia simplesmente é parte duma parábola mítica.

A HIPATIA DA HISTÓRIA
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A verdadeira Hipatia foi filha de Theon, que ficou conhecido pela sua edição dos “Elementos” de Euclídes, e pelos seus comentários de Ptolomeu, Euclídes e Arato. O ano do seu nascimento é normalmente identificado como 370 AD, mas Maria Dzielska alega que isto são 15-20 anos demasiado tarde e sugere que 350 AD como o ano mais acertado. Isto faria com que ela tivesse 65 anos quando foi assassinada e desde logo o seu papel provavelmente deveria ter sido desempenhado por Helen Mirren e não Rachel Weisz. Mas isso dificultaria a venda do filme.
Ela cresceu e passou a ser uma estudiosa renomeada por mérito próprio. Ela parece ter ajudado o seu pai na sua edição de Euclídes e na edição do “Almagesto” de Ptolomeu, bem como escrevendo comentários sobre a “Aritmética” de Diofanto e as “Cónicas” de Apolónio. Tal como a maioria dos filósofos naturais do seu tempo, ela adoptou as ideias neo-Platónicas de Plotino e como tal, o seu método de ensino cobriu uma vasta gama de pessoas – pagãos, Cristãos e Judeus.
Existem algumas sugestões de que o filme de Amenabar caracteriza Hipatia como ateísta, ou pelo menos totalmente irreligiosa, o que é altamente improvável. O Neo-Platonismo adoptava a ideia duma fonte perfeita e primária chamada “O Tal” ou “o Bem”, que, durante o tempo de Hipatia, estava em todos os aspectos totalmente identificado com o Deus do monoteísmo.
Ela era admirada por muitos e pelo menos um dos seus estudantes mais ardenntes foi o Bispo de Sinésio, que lhe dirigiu várias cartas chamando-a de “mãe, irmã, professora, e além disso benfeitora, e quem quer que seja honrado por nome ou por acto“, afirmando que “ela é a professora mais reverenciada” e descrevendo-a como aquela “que legitimamente preside os mistérios da filosofia” (R. H. Charles, The Letters of Synesius of Cyrene). O cronista Cristão citado em cima, Sócrates Escolástico, também escreveu dela admiradoramente:
Havia uma mulher em Alexandria chamada Hipatia, filha do filósofo Theon, que fez coisas grandes na literatura e na ciência, chegando até a ultrapassar os filósofos do seu tempo. Havendo sido bem sucedida na escola de Plato e Plotino, ela explicou os princípios de filosofia para os seus ouvintes, muitos deles provenientes de zonas distantes como forma de receberem as suas instrucções. Devido ao seu auto-domínio e à sua maneira calma, que ela havia adquirido em conseqüência do cultivo da sua mente, ela aparecia regularmente em público na presença de magistrados. E ela nem se sentia envergonhada por se fazer presente numa reunião de homens. Porque devido à sua dignidade e virtude, todos os homens a admiravam mais.(Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, VII.15)
Se ela, então, era admirada de tal forma, e respeitada pelos Cristãos eruditos, como foi que ela veio a ser assassinada por uma multidão de Cristãos? E mais importante ainda, será que o seu assassinato estava de alguma forma relacionado com o seu amor à ciência?
A resposta encontra-se no jogo político do princípio do século Quinto em Alexandria, e a forma como o poder dos Bispos Cristãos estava a começar a invadir o poder das autoridades civis da altura. O Patriarca de Alexandria, Cirílo, havia sido o protegido do seu tio Teófilo e tinha-lhe sucedido no bispado em 412 AD. Teófilo havia já feito a posição de Bispo de Alexandria uma posição poderosa e Cirílo havia continuado a sua política de expandir a influência da posição, invandido de modo incremental os poderes e os privilégios do Perfeito da cidade. Por essa altura, o Perfeito da cidade era outro Cristão, Orestes, que havia assumido o lugar pouco antes de Cirílo se tornar bispo.
Orestes e Cirílo rapidamente entraram em conflito devido as acções linha-dura contra as facções Cristãs mais pequenas tais como os Novacianos e a sua violência contra a enorme comunidade Judaica de Alexandria. Depois dum ataque por parte dos Judeus a uma congregação Cristã e a um pogrom retaliatório contra as sinagogas Judaicas liderado por Cirílo, Orestes queixou-se ao Imperador mas o seu pedido foi rejeitado. A tensão entre os apoiantes do Bispo e os apoiantes do Prefeito escalaram ainda mais numa cidade conhecida pelo governo das multidões e pela violência de rua politicamente motivada.
Por acaso ou por escolha, Hipatia deu por si no meio desta luta pelo poder por parte de duas facções Cristãs. Ela era bem conhecida por parte de Orestes (e provavelmente por parte de Cirílio) como uma participante proeminente na vida cívica da cidade, e era vista por parte da facção de Cirílo não só como uma aliada política de Orestes, mas também como um obstáculo para qualquer tipo de reconciliação entre os dois homens.
As tensões aumentaram ainda mais quando um grupo de monges dum mosteiro remoto do deserto – homens conhecidos pelo seu zelo fanático mas não identificados como pessoas com sofisticação politica – vieram à cidade em massa, como forma de apoiarem Cirílo, e deram início a tumultos que resultaram na comitiva de Orestes a ser apedrejada, com uma das pedras a atingir o Prefeito na cabeça. Não sendo alguém que aceitasse tais insultos, Orestes mandou que os monges em questão presos e torturados, o que levou à sua morte.
Cirílo tentou explorar a tortura e a morte dos monges, alegando que esse evento nada mais foi que um martírio por parte de Orestes. Deste vez, no entanto, os seus apelos às autoridades Imperiais foram rejeitados. Furiosos, os seguidores de Cirílo (com ou sem o seu conhecimento) vingaram-se, agarrando Hipatia na rua, como seguidora política de Orestes, torturando-a até à morte como vingança.
De modo geral, os Cristãos olharam para este evento com horror e com repulsa com Sócrates Scholasticus demonstrando de uma forma bem clara os seus sentimentos:

Hipatia foi vítima de inveja politica que existia por essa altura. Uma vez que ela tinha conversas frequentes com Orestes, foi reportado de um modo calunioso entre a população Cristã de que era ela quem impedia Orestes de se reconciliar com o bispo. Devido a isto, alguns deles apressaram-se no seu zelo feroz e fanático, cujo líder era Pedro o declamador, emboscaram-na enquanto ela voltava para casa, arrastaram-na da sua carruagem, levaram-na para a igreja chamada Caesareum onde eles a despiram e a mataram usando azulejos [conchas de ostras]. Depois de terem rasgado o seu corpo em pedaços, levaram os seus membros mutilados para um lugar chamado Cinaron, onde eles a queimaram.
Este incidente não deixou de trazer vergonha, não só para Cirílo mas para toda a igreja Alexandrina. Porque certamente nada está mais afastado do espírito do Cristianismo do que a permissão de massacres, lutas e transacções deste tipo. (Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, VII.15).
O que é notável nisto tudo é que em parte alguma a sua ciência ou o seu aprendizado são mencionados, excepto como base do respeito que ela recebia de pagãos e de Cristãos.
Sócrates Scholasticus termina descrevendo as suas façanhas e a estima que as pessoas tinham por ela, afirmando “Até ela foi vítima da inveja política que existia por essa altura”. Dito de outra forma, apesar da sua erudição e do seu conhecimento, ela foi vítima de jogos políticos. Não há qualquer tipo de evidência de que o seu assassinato estava de alguma forma relacionado com o seu conhecimento. A ideia de que ela foi uma espécie de mártir para a ciência é totalmente absurda.

HISTÓRIA VERSUS OS MITOS. E OS FILMES
Hypatia_Falando

Infelizmente para aqueles que se agarram à desacreditada “tese do conflito” da ciência e da religião perpetuamente em guerra, a história da ciência tem muito poucos mártires genuínos assassinados por mãos de religiosos intolerantes. O facto dum místico e dum maluco como Giordano Bruno ser reinventado como um livre pensador cientista revela o quão frágil é a tese desses “mártires da ciência”, embora aqueles que gostam de invocar estes mártires possam ter uma recaída ao alegarem que “a Inquisição Medieval queimou cientistas”, apesar do facto disso nunca ter acontecido. A maior parte das pessoas nada sabe da Idade Média, e como tal, este tipo de agitar de mãos é normalmente bastante segura.
Ao contrário de Giordano Bruno, Hipatia foi uma cientista genuína e, como mulher, ela foi certamente espantosa para o seu tempo (embora o facto de outra cientista pagã, Aedisia, ter practicado ciência em Alexandria uma geração depois sem sofrer qualquer tipo de problemas revela que Hipatia estava muito longe de ser única). Mas Hipatia não foi nenhuma mártir para a ciência, e a ciência não teve nada a ver com a sua morte.
Não se sabe ainda quanto do genuíno background politico envolta da morte de Hipatia Amenabar colocou no seu filme. Espera-se que, ao contrário de Carl Sagan, todo o clima político do seu assassinato não seja simplesmente ignorado e a sua morte não seja pintada como um acto puramente anti-intelectual por parte de pessoas ignorantes, raivosas contra a sua ciência e contra a sua erudição. Mas o que está mais ou menos claro a partir das suas entrevistas e da pré-publicidade do filme, é que ele escolheu enquadrar a história em termos Gibbonianos directamente do manual da “tese de conflito” – a destruição da “Grande Biblioteca”, Hipatia vítimizada devido ao seu conhecimento, e a sua morte como um prenúncio do início da “Idade das Trevas”.
Como é normal, os intolerantes e os fanáticos anti-religiosos irão ignorar as evidências, as fontes e a análise racional e resolver acreditar no apelo que Hollywood faz aos seus preconceitos. Isto leva-nos a perguntar quem são os verdadeiros inimigos do conhecimento.
Fonte: Armarium Magnum via Darwinismo. (Artigo escrito brilhantemente por um, até agora, ateu!)

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Os Filósofos de Deus: como o mundo medieval estabeleceu os fundamentos da ciência moderna! (O mito da “Idade das Trevas”)

por Tim O’Neill

(Traduzido do inglês para o português de Portugal.) O meu interesse pela ciência Medieval foi largamente estimulado por um livro. Por volta de 1991, quando eu era um aluno de pós-graduação empobrecido e frequentemente esfomeado na Universidade da Tasmânia, dei com uma cópia do livro de Robert T. Gunther com o título de “Astrolabes of the World” – 598 páginas-fólio de astrolábios islâmicos, Medievais e Renascentistas meticulosamente catalogados, cheio de fotos, diagramas e listas estreladas, bem como uma vasta gama de outro tipo de informação.
Dei com ele, e de forma bem apropriada e não incidental, nos “Astrolabe Books” de Michael Sprod – no piso de cima de um dos lindos e antigos armazéns de arenito que se encontram alinhados num lugar com o nome de “Salamanca Place” (…). Infelizmente, o livro custava $200, o que por aquela altura era o equivalente ao que eu tinha para gastar durante o mês inteiro.
Mas o Michael já estava habituado a vender livros a estudantes empobrecidos, e devido a isso, não almocei e fiz um adiantamento de $10 e, durante vários meses, regressava todas as semanas para dar o mais que podia até que eventualmente consegui levá-lo para casa, embrulhado em papel castanho duma forma que só as livrarias Hobart se preocupam em fazer. Há poucos prazeres mais gratificantes do que aquele em que se tem nas mãos o livro que há já muito tempo se quer ler.
Filosofos_de_Deus_Gods_PhilosophersTive outra experiência igualmente gratificante quando, há algumas semanas atrás, recebi uma cópia do livro deJames Hannam com o título de “God’s Philosophers: How the Medieval World Laid the Foundations of Modern Science [“Os Filósofos de Deus: Como o Mundo Medieval Estabeleceu os Fundamentos da Ciência Moderna”].
Há já alguns anos que brinco com a ideia de criar um site dedicado à ciência e à tecnologia Medieval como forma de tornar públicas as mais recentes pesquisas em torno do tópico, e também para refutar os mitos preconceituosos que caracterizam esse período como uma Idade das Trevas repleta de superstição irracional. Felizmente, hoje posso riscar essa tarefa da minha lista porque o suberbo livro de Hannam fez esse trabalho por mim, e em grande estilo.
A Idade das Trevas Cristã e Outros Mitos Histéricos
Um do riscos ocupacionais de se ser um ateu e um humanista secular que divaga por fórums de discussão é o de encontrar níveis assombrosos de ignorância histórica. Gosto de me consolar com a ideia de que muitas das pessoas que se encontram em tais fórums adoptaram o ateísmo através do estudo da ciência, e como tal, mesmo que essas pessoas tenham conhecimentos avançados em áreas tais como a geologia e a biologia, o seu conhecimento histórico encontra-se parado no nível secundário. Geralmente, eu costumo agir assim porque a alternativa é admitir que o entendimento histórico médio da pessoa comum, e a forma como a História é estudada, é tão frágil que se torna deprimente.
Logo, para além de ventilações regulares de mitos cabeludos tais como o da Bíblia ter sido organizada no Concílio de Niceia, ou do enfadonho disparate cibernético de que “Jesus nunca existiu!”, ou também do facto de pessoas inteligentes estarem a propagar alegações pseudo-históricas que fariam com que até Dan Brown suspirasse com escárnio, o mito de que a Igreja Católica causou a Idade das Trevas, e que o Período Medieval foi um vazio científico, é regularmente empurrado com um carrinho-de-mão ferrugento para a linha da frente como forma de o expor por toda a arena.
O mito diz que os Gregos e os Romanos eram sábios e pessoas racionais que amavam a ciência, e que estavam à beira de fazer todo o tipo de coisas maravilhosas (normalmente, a invenção de máquinas a vapor de grande porte é inocentemente invocada) até que o Cristianismo chegou. O Cristianismo baniu, então, todo o conhecimento e todo o pensamento racional, e inaugurou a Idade das Trevas.
Durante este período, diz o mito, a teocracia com punho de ferro, apoiada pela Inquisição ao estilo da Gestapo, impediu que fosse feita qualquer actividade científica, ou qualquer actividade de investigação, até que Leonardo da Vinci inventou a inteligência e o Renascimento nos salvou a todos das trevas Medievais.
As manifestações cibernéticas desta ideia curiosamente pitoresca, mas aparentemente infatigável, variam de quase atabalhoadas a totalmente chocantes, mas a ideia continua a ser uma daquelas coisas que “toda a gente sabe”, e que permeia a cultura moderna.
Um episódio recente da série “Family Guy” exibiu o Stewie e o Brian a entrar num mundo alternativo futurista onde, foi-nos dito, as coisas eram avançadas desse modo porque o Cristianismo não havia destruído o conhecimento, dado início à Idade das Trevas, e impedido o desenvolvimento da ciência. Os escritores não sentiram a necessidade de explicar o significado das palavras de Stewie porque assumiram que toda a gente sabia.
Cerca de uma vez a cada 3 ou 4 meses em fórums tais como RichardDawkins.Net temos algumas discussões onde sempre aparece alguém a invocar a “Tese do Conflicto”. Isso evolui para o normal ritual onde a Idade Média é retratada como um deserto intelectual onde a humanidade se encontrava algemada pela superstição e oprimida pelos cacarejadores asseclas da Velha e Maligna Igreja Católica.
Os velhos estandartes são apresentados na altura certa: Giordano Bruno é apresentado como um mártir da ciência, nobre e sábio, e não como o irritante místico “Nova Era” que ele era. Hipatia é apresentada como outra mártir deste tipo, e a mitológica destruição da Grande Biblioteca de Alexandria é falada num tom silencioso, apesar de ambas estas ideias serem totalmente falsas.
O incidente em torno de Galileu é apresentado como evidência dum cientista destemido a opor-se ao obscurantismo científico da Igreja, apesar do incidente ter tanto a ver com a ciência como com as Escrituras. E, como é normal, aparece sempre alguém a exibir um gráfico (ver mais embaixo), que eu dei o nome de “A Coisa Mais Errada de Sempre da Internet”, e a mostrá-lo triunfalmente como se o mesmo fosse prova de algo que não do facto da maior parte das pessoas serem totalmente ignorantes da História, e incapazes de ver que algo como “Avanço Científico” nunca pode ser quantificado, e muito menos pode ser representado visualmente num gráfico.
Ciencia_Idade_Media_Segundo_Os_Ignorantes
Não é difícil pontapear este disparate e reduzi-lo a nada, especialmente porque as pessoas que o apresentam não só não sabem quase nada de História, como também tudo o que fazem é repetir ideias estranhas como esta que eles viram em sites e livros populares. Estas alegações entram em colapso mal tu as atacas com evidências sólidas.
Eu gosto de embaraçar por completo estes propagadores perguntando-lhes que me apresentem um – um só – cientista que foi queimado, perseguido, ou oprimido durante a Idade Média por motivos científicos. Eles são incapazes de me apresentar um único nome. Normalmente, eles tentam forçar Galileu de volta à Idade Média, o que é engraçado visto que ele foi contemporâneo de Descartes.
Quando lhes é perguntado o porquê deles serem incapazes de apresentar um único nome dum cientista que tenha sofrido por motivos científicos, visto que aparentemente a Igreja esta ocupada a oprimi-los, eles normalmente alegam que a Velha e Maligna Igreja fez um trabalho tão bom a oprimi-los que todas as pessoas passaram a ter medo de fazer ciência.
Quando eu lhes apresento uma lista de cientistas da Idade Média – tais como Albertus MagnusRobert GrossetesteRoger BaconJohn Peckham, Duns Scotus,Thomas BradwardineWalter BurleyWilliam HeytesburyRichard SwinesheadJohn DumbletonRichard de WallingfordNicholas Oresme,Jean Buridan e Nicolau of Cusa – e lhes pergunto o porquê destes homens levarem a cabo a sua actividade científica durante a Idade Média alegremente e sem terem sofrido qualquer tipo de interferência por parte da Igreja, os meus adversários frequentemente coçam as cabeças confusos sobre o que foi que correu mal.
A Origem dos Mitos
A forma como os mitos que deram origem “A Coisa Mais Errada de Sempre da Internet”surgiram encontra-se bem documentada em vários livros em torno da história da ciência. Mas Hannam inteligentemente lida com eles nas páginas iniciais do seu livro visto que seria provável que eles viessem a formar uma base que levasse muitos leitores do público geral a olhar com suspeição para a ideia dos fundamentos Medievais da ciência moderna.
Uma melange purulenta envolvendo a intolerância do Iluminismo, os ataques anti-papistas feitos por Protestantes, o anti-clericalismo Francês, e a arrogância Classicista, levou a que o período Medieval ficasse caracterizado como uma era de atraso e superstição – o oposto do que a pessoa comum associa com a ciência e com a razão.
Hannam não só mostra como polemistas tais como Thomas HuxleyJohn William Draper, e Andrew Dickson White – todos eles com o seu preconceito anti-Cristão – conseguiram moldar a ainda presente ideia de que a Idade Média foi uma era vazia de ciência e de conhecimento racional, como revela que só quando historiadores no verdadeiro sentido do termo se incomodaram em colocar em causa os polemistas através das obras de pioneiros na área, tais como Pierre DuhemLynn Thorndike, e o autor do meu livro sobre o astrolábio,  Robert T. Gunther, que as distorções dos preconceituosos começaram a ser corrigidas através pesquisas fiáveis e vazias de preconceito .
Esse trabalho foi agora completado pela mais recente gama de modernos historiadores da ciência tais como David C. LindbergRonald Numbers, e Edward Grant. Na esfera académica pelo menos a “Tese do Conflicto” duma guerra histórica entre a ciência e a teologia há muito que foi colocada à parte.
É, portanto, estranho que tantos dos meus amigos ateus se agarrem de forma tão desesperada a uma posição há muito morta que só foi mantida por polemistas amadores do século 19, em vez de se agarrarem às  pesquisas apuradas levadas a cabo por historiadores objectivos e actuais, e que cujas obras foram alvo de revisão por pares. Este comportamento é estranho especialmente quando o mesmo é levado a cabo por pessoas que se intitulam de “racionalistas”.
Falando em racionalismo, o ponto crucial que o mito obscurece é precisamente o quão racional a pesquisa intelectual foi durante a Idade Média. Embora escritores tais comoCharles Freeman continuem a alegar que o Cristianismo matou o uso da razão, a realidade dos factos é que graças ao encorajamento de pessoas tais como Clemente de Alexandria e Agostinho em favor do uso da filosofia dos pagãos, e das traduções das obras de lógica de Aristóteles, e de outros feitas, por Boécio, a investigação racional foi uma das jóias intelectuais que sobreviveu ao colapso catastrófico do Império Romano do Ocidente, e foi preservada durante a assim-chamada Idade das Trevas.
O soberbo livro God and Reason in the Middle Ages de Edward Grant detalha precisamente isto com um vigor característico, mas nos seus primeiros 4 capítulos Hannam faz um bom resumo deste elemento-chave. O que torna a versão histórica de Hannam mais acessível do que a de Grant é que ele conta-a através das vidas das pessoas-chave da altura – Gerbert de Aurillac, Anselmo, Guilherme de Conches, Adelardo de Bath, etc.
Algumas das pessoas que fizeram uma avaliação [inglês: “review] do livro de Hannam qualificaram esta abordagem de um bocado confusa dado que o enorme volume de nomes e mini-biografias podem fazer com que as pessoas sintam que estão a aprender um bocado sobre um vasto número de pessoas. Mas dada amplitude do tópico de Hannam, isto é francamente inevitável e a abordagem semi-biográfica é claramente mais acessível que a pesada e abstracta análise da evolução do pensamento Medieval.
Hannam disponibiliza também um excelente resumo da Renascimento do Século 12 que, contrariando a percepção popular e contrariando “o Mito”, foi efectivamente o período durante o qual o conhecimento antigo invadiu a Europa Ocidental. Longe de ter sido resistido pela Igreja, foram os homens da Igreja que buscaram este conhecimento junto dos muçulmanos e das Judeus da Espanha e da Sicília.
E longe de ter sido resistido e banido pela Igreja, o conhecimento foi absorvido e usado para formar a base do programa de estudo dessa outra grande contribuição Medieval para o mundo: as universidades que começavam a aparecer um pouco por todo o mundo Cristão.
Deus e a Razão
Deus_Razao_Ciencia_Idade_MediaO encapsulamento da razão no centro da pesquisa, combinada com o influxo do “novo” conhecimento Grego e Árabe, deu início a uma autêntica explosão de actividade intelectual na Europa, começando no Século 12 e avançando por aí em adiante. Foi como se o estímulo súbito de novas perspectivas e as novas formas de olhar para o mundo tenham caído em terreno fértil numa Europa que, pela primeira vez em séculos, encontrava-se em paz  relativa, era próspera, olhava para o exterior, e era genuinamente curiosa.
Isto não significa que as forças mais conservadoras e reaccionárias não tenham tido dúvidas em relação às novas áreas de pesquisa, especialmente em relação à forma como a filosofia e a especulação em torno do mundo natural e em torno do cosmos poderia afectar a teologia aceite. Hannam é cuidadoso para não fingir que não houve qualquer tipo de resistência ao florescimento do novo pensamento e da investigação, mas, ao contrário dos perpetuadores “do Mito”, ele leva em consideração essa resistência mas não a apresenta como tudo o que há para saber sobre esse período.
De facto, os esforços dos conservadores e dos reaccionários eram normalmente acções de retaguarda e foram em quase todas as instâncias infrutíferas nas suas tentativas de  limitar a inevitável inundação de ideias que começou a jorrar das universidades. Mal ela começou, ela foi literalmente imparável.
De facto, alguns dos esforços dos teólogos de colocar alguns limites ao que poderia e não poderia ser aceite através do “novo conhecimento”, geraram como consequência o estímulo da investigação, e não a sua constrição.
As “Condenações de 1277” tentaram afirmar algumas coisas que não poderiam ser declaradas como “filosoficamente verdadeiras”, particularmente aquelas coisas que colocavam limites à Omnipotência Divina. Isto teve o interessante efeito de mostrar que Aristóteles havia, de facto feito alguns erros graves – algo que Tomás de Aquinas havia colocado ênfase na sua altamente influente Summa Theologiae:
As condenações e a Summa Theologiae de Aquinas haviam gerado um enquadramento dentro do qual os filósofos naturais poderiam prosseguir os seus estudos em segurança, e esse enquadramento havia estabelecido o princípio de que Deus havia decretado as leis naturais mas que Ele não Se encontrava limitado pelas mesmas. Finalmente, esse enquadramento declarou que Aristóteles esteve por vezes errado. O mundo não era “eterno segundo a razão” e “finito segundo a fé”. O mundo não era eterno. Ponto final.
E se Aristóteles poderia estar errado em algo que ele considerava certamente certo, isso colocava em dúvida toda a sua filosofia. Estava assim aberto o caminho para que os filósofos naturais da Idade Média avançassem de forma mais firme para além das façanhas dos Gregos. (Hannam, pp 104-105)
E foi exactamente isso que eles passaram a fazer. Longe de ser uma era sombria e estagnada, tal como o foi a primeira metade do Período Medieval (500-1000), o periodo que vai desde o ano 1000 até ao ano 1500 é, na verdade, o mais impressionante florescimento da pesquisa e da investigação científica desde o tempo dos antigos Gregos, deixando muito para trás as Eras Helénicas e Romanas em todos os aspectos.
Com Occam e Duns Scotus a avançarem com a abordagem crítica aos trabalhos de Aristóteles para além da abordagem mais cautelosa de Aquinas, estava aberto o caminho para que os cientistas Medievais dos Séculos 14 e 15 questionassem, examinassem e testassem as perspectivas que os tradutores dos Séculos 12 e 13 lhes haviam dado, e isto com efeitos surpreendentes:
Durante o século 14, os pensadores medievais começaram a reparar que havia algo seriamente errado em todos os aspectos da filosofia Natural de Aristóteles, e não só naqueles aspectos que contradiziam directamente a Fé Cristã. Havia chegado o momento em que os estudiosos medievais seriam capazes de começar a sua busca como forma de avançar o conhecimento……enveredando por novas direcções que nem os Gregos e nem os Árabes haviam explorado. O seu primeiro avanço foi o de combinar as duas disciplinas da matemática e da físicas duma forma que não havia sido feita no passado. (Hannam p. 174)
A história deste avanço, e os espantosos estudiosos de Oxford que o levaram a cabo e, desde logo, lançaram as bases da ciência genuína – os “Calculadores de Merton” – muito provavelmente merece um livro separado, mas o relato de Hannam certamente que lhes faz justiça e é uma secção fascinante da sua obra.
Os nomes destes pioneiros do método científico – Thomas BradwardineWilliam HeytesburyJohn Dumbleton e o deliciosamente nomeado Richard Swineshead – merecem ser conhecidos. Infelizmente, a obscurecedora sombra “do Mito” significa que eles continuam a ser ignorados ou desvalorizados até mesmo em histórias da ciência recentes e populares. O resumo de Bradwardine do discernimento-chave que estes homens trouxeram para a ciência é uma das citações mais importantes da ciência inicial e ela merece ser reconhecida como tal:
[A matemática] é a reveladora da verdade genuína…..quem quer que tenha o descaramento de estudar a física ao mesmo tempo que negligencia a matemática, tem que saber desde o princípio que nunca entrará pelos portais da sabedoria. (Citado por Hannam, p. 176)
Estes homens não só foram os primeiros a aplicar de forma genuína a matemática à física, como desenvolveram funções logarítmicas 300 anos antes de John Napier, e o Teorema da Velocidade Média 200 anos antes de Galileu. O facto de Napier e Galileu serem creditados por terem descoberto coisas que os estudiosos Medievais já haviam desenvolvido é mais um indicador da forma como “o Mito” tem distorcido a nossa percepção da história da ciência.
Nicolas_OresmeSemelhantemente, a física e a astronomia de Jean Buridan e de Nicholas Oresme eram radicais e profundas, mas de modo geral, desconhecidas para o leitor comum.  Buridan foi um dos primeiros a comparar os movimentos do cosmos com os movimentos daquela que é outra inovação Medieval: o relógio. A imagem dum universo a operar como um relógio, imagem essa que passou a ser usada com sucesso pelos cientistas até aos dias de hoje, começou na Idade Média.
E as especulações de Oresme em relação a uma Terra em rotação mostra que os estudiosos Medievais alegremente contemplavam ideias que (para eles) eram razoalmente estranhas como forma de ver se funcionariam; Oresme descobriu que esta ideia em especial na verdade funcionava muito bem.
Dificilmente estes homens eram o resultado duma “idade das trevas” e as suas carreiras estão conspicuamente livres de qualquer tipo de Inquisidores e de ameaças de queimas tão amadas e sinistramente imaginadas pelos fervorosos proponentes “do Mito”.
Galileu, Inevitavelmente.
Tal como dito em cima, nenhuma manifestação “do Mito” está completa se que o Incidente de Galileu seja mencionado. Os proponentes da ideia de que durante a Idade Média a Igreja sufocou a ciência e a racionalidade têm que empurrá-lo para a linha da frente visto que, sem ele, eles não têm exemplos da Igreja a perseguir alguém por motivos relacionados à pesquisa do mundo natural.
A ideia comum de que Galileu foi perseguido por estar certo em relação ao heliocentrismo é uma total simplificação dum assunto complexo, e um que ignora o facto do principal problema de Galileu não ser só que as suas ideias estavam em desacordo com a interpretação das Escrituras, mas também em desacordo com a ciência dos seus dias.
Ao contrário da forma como este assunto é normalmente caracterizado, nos dias de Galileu o ponto principal era o facto das objecções científicas ao heliocentrismo ainda serem suficientemente poderosas para impedirem a sua aceitação.
Em 1616 o Cardeal Bellarmine deixou bem claro para Galileu que se aquelas objecçõescientíficas pudessem ser superadas, então as Escrituras poderiam e deveriam ser reinterpretadas. Mas enquanto essas objecções se mantivessem, a Igreja, compreensivelmente, dificilmente iria derrubar séculos de exegese em favor duma teoria errónea. Galileu concordou em só ensinar o heliocentrismo como um dispositivo de cálculo teórico, mas depois mudou de ideia e, num estilo típico, ensinou-a como um facto. Isto causou a que em 1633 ele fosse acusado pela Inquisição.
Hannam disponibiliza o contexto para tudo isto com detalhe adequado numa secção do livro que também explica a forma como o Humanismo do “Renascimento” causou a que uma nova vaga de estudiosos não só tenha buscado formas de idolatrar os antigos, mas também formas de voltar as costas às façanhas de estudiosos mais recentes tais como Duns Scotus, Bardwardine, Buridan, e Orseme.
Consequentemente, muitas das suas descobertas e muitos dos seus avanços ou foram ignorados, ou foram esquecidos (só para serem redescobertos independentemente), ou foram desprezados mas silenciosamente apropriados. O caso de Galileu usar o trabalho dos estudiosos Medievais sem reconhecimento é suficientemente condenador.
Na sua ânsia de rejeitar a “dialéctica” Medieval e emular os Gregos e os Romanos – que, curiosamente, e de muitas formas, fez do “Renascimento” um movimento conservador e retrógrado – eles rejeitaram desenvolvimentos e avanços genuínos dos estudiosos Medievais. Que um pensador do calibre Duns Scotus se tenha tornado primordialmente conhecido como a etimologia da palavra “dunce” é profundamente irónico.
Por melhor que seja a parte final do livro, e por mais valiosa que seja a análise razoavelmente detalhada das realidades em torno do Incidente de Galileu, tenho que dizer que os últimos 4 ou 5 capítulos do livro de Hannam passam a ideia de terem falado de coisas que eram demasiado complicadas de se “digerir”. Eu fui capaz de seguir o seu argumento facilmente, mas eu estou bem familiarizado com o material e com o argumento que ele está a avançar.
Acredito que para aqueles com esta ideia do “Renascimento”, e para aqueles com a ideia de que Galileu nada mais era que um mártir perseguido da ciência e um génio, a parte final do livro pode avançar duma forma demasiado rápida para eles entenderem. Afinal de contas, os mitos têm uma inércia muito pesada.
Pelo menos uma pessoa que reviu o livro parece ter achado o peso dessa inércia demasiado dura para resistir, embora seja provável que ela tenha a sua própria bagagem para carregar. Nina Powerescrevendo para a revista New Humanist, certamente que parece ter tido alguns problemas em deixar de parte a ideia da Igreja a perseguir os cientistas Medievais:
Só porque a perseguição não era tão má como poderia ter sido, e só porque alguns pensadores não eram as pessoas mais simpáticas do mundo, isso não significa que interferir no seu trabalho ou banir os seus livros era justificável nessa altura ou que seja justificável nos dias de hoje.
Bem, ninguém disse que era justificável; explicar como é que ela surgiu, e o porquê dela não ter sido tão extensa como as pessoas pensam, e como ela não teve a natureza que as pessoas pensam que teve, não é “justificar” nada, mas sim corrigir um mal-entendido pseudo-histórico.
Dito isto, Power tem algo que parece ser a razão quando salienta que “A caracterização de Hannam dos pensadores [do Renascimento] como ‘reaccionários incorrigíveis’ que ‘quase conseguiram destruir 300 anos de progresso na filosofia natural’ está em oposição com a sua caracterização mais cuidada daqueles que vieram antes.” No entanto, isto não é porque a caracterização está errada, mas sim porque a dimensão e a extensão do livro realmente não lhe dão espaço para fazer justiça a esta ideia razoavelmente complexa, e, para muitos, radical. (…)
Deixando isso de parte, este é um livro maravilhoso, e um antídoto acessível e brilhante contra “o Mito”. Ele deveria estar na lista de Natal de qualquer Medievalista, estudioso da história da ciência, ou de qualquer pessoa que tem um amigo equivocado que ainda pensa que as luzes da Idade Média eram acesas queimando cientistas.
Fonte: Armarium Magnum via Darwinismo. (Artigo escrito brilhantemente por um, até aqui, ateu!)

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A mulher grávida que pisou a cabeça da cobra – uma leitura crítica!

Jesus criou as mulheres em igualdade
com os homens. Uma igreja cristã,
em vez de se preocupar com o feminismo
(e incorporá-lo), deveria ensinar o Gênesis.
A gravura deste artigo circulou nas redes sociais e foi fartamente distribuída por pastores, missionários, seminaristas e tantos outros evangélicos neste Natal.
Contudo, o que me chamou a atenção foram as palavras da minha filha de 10 anos ao olhar para esse desenho: “Nada a ver! Não foi Maria quem pisou na cabeça da cobra”! E não foi só minha filha de 10 anos de idade quem se pronunciou sobre o desenho em questão.
“Nós nem vimos a cobra”, disse-me um casal de evangélicos diante da gravura. O que poderia justificar e ser usado como desculpa numa “curtida desatenta” por parte de tantos evangélicos maravilhados com a mulher grávida que pisa a cobra.
“Ah! Que lindo! Tem uma imagem de Maria que também pisa na cobra igualzinha a essa aí. Tão bonito isso”, disse-me uma católica. E devo confessar que, sendo ex-romano, a primeira coisa que me veio à mente foi a pinacoteca das diversas imagens católicas de Maria pisando a cabeça da serpente, que sempre estiveram presentes por toda minha infância e adolescência.
Tirando os evangélicos que “curtiram” sem se dar conta de que a mulher grávida do desenho pisava uma cobra, o que dizem os evangélicos “conscientes”, os que postaram a gravura? “É a Igreja”, responderam.
A mulher é o símbolo da Igreja e a Igreja é quem pisa a cabeça da cobra, que é Satanás. “Pisa” por extensão, é bom frisar. Quem pisou a cabeça da cobra foi Jesus, portanto, sendo Jesus o Cabeça da Igreja, esta o pisa vitoriosamente.
A figura da mulher como imagem da Igreja é depreendida a partir do texto de Apocalipse 12. Porém, o que João faz é o contrário do que seus interpretantes fizeram posteriormente. João toma Maria como símbolo da Igreja (e do Povo de Deus no Antigo Testamento), e não o contrário: a Igreja não é símbolo de Maria.
Mas é exatamente isso o que os católicos romanos fazem. Tanto que eles, ao se depararem com o símbolo da Igreja na figura de Maria, concluem inversamente: “Os homens é que devem escolher em qual lado lutar. Do lado da serpente ou se do lado da semente da Mulher – Maria – Mãe de Jesus Cristo, mas também de cada um” (Padre Paulo Ricardo).
“A semente da Mulher – Maria – Mãe de Jesus Cristo…”. Ora, o romanismo compreende que Maria é mãe da Igreja, a igreja é “semente de Maria”. Por quê? Por extensão também. Se Maria gerou Jesus, que é o Cabeça da Igreja, sendo a igreja o corpo de Jesus, logo Maria é mãe da Igreja.
Por isto, tão imediatamente, numa cultura católica como a brasileira, a maioria das pessoas irá identificar aquela mulher grávida que pisa a cabeça da serpente no desenho em questão não com a Igreja vitoriosa, mas com a mãe da Igreja – a mulher Maria; ainda que o catolicismo oficial saiba muito bem que quem pisou a cabeça da cobra foi Jesus (veja aqui).
A mulher da gravura está grávida. E é na condição de grávida que ela pisa a cabeça da serpente – e não é nada isto o que encontramos em Apocalipse 12. A vitória sobre o diabo, por intermédio de Maria e sem a Cruz, pois Jesus está no ventre dela – protegido de todo mal, de toda dor, de todo sofrimento, enquanto é o pé dela que pisa a cabeça da cobra – esta é a mensagem posta pela gravura.
O parágrafo acima revela o espírito do nosso século representado na gravura: o advento do feminino, da deusa mulher, da superioridade da mulher sobre o homem, da assunção da maternidade sobre a paternidade.
Ainda que a mulher da gravura fosse a Igreja, o equívoco foi coloca-la grávida – mais do que um ruído, mais do que uma mera interferência, é um excesso de informação que desloca o interpretante do verdadeiro sentido do Natal para uma interpretação transbordada de sincretismo pagão da Nova Era.
Sem a encarnação completa, sem a vida de total obediência, sem a paixão e sem a morte substitutiva e a ressurreição vitoriosa que compõem o evangelho da nossa salvação, um Messias protegido no ventre de sua mãe enquanto esta resolve o problema criado pelo ser humano é a interpretação que sobra.
Em outras palavras, é um outro evangelho o da gravura: “Porque, como, pela desobediência de uma só mulher, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de uma só mulher, muitos se tornarão justos”.
Este artigo não comporta tudo o que poderíamos desenvolver sobre a importância de sabermos evangelizar nossa geração, compreendendo todas as nuances e complexidades do nosso multiculturalismo pós-moderno, ainda assim há duas regras simples que eu deixaria aqui.
A famosa regra de ouro diz que, em termos de comunicação, o importante é o que o outro entende e não o que você quis dizer. E evangelizar é comunicar as boas novas da salvação e o mais importante é sabermos o que o outro compreende e não o que eu penso sobre o que ele deveria entender.
A segunda regra é que, como missionários, não basta trabalhar com pressupostos, mas antes com aquilo que está propriamente posto. Em outras palavras, é muito mais importante você compreender o que está posto diante do interpretante por essa imagem da mulher grávida do que esperar que esse interpretante consiga entender os pressupostos da própria imagem da mesma maneira que o seu gueto teológico os entende (“entendimento” este que pode também estar equivocado, conforme demonstrei aqui neste artigo).
Acredito que é preciso comunicar melhor a mensagem do Evangelho, ainda mais quando a veiculamos nas redes sociais, ambiente que alcançará crentes e descrentes das mais diferentes formações, e essa é uma responsabilidade que cabe, indubitavelmente, aos líderes cristãos que se utilizam da internet.
Fonte: Fábio Ribas.

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Matemáticos e a Evolução

A matemática é uma área da academia em que o ceticismo científico do neodarwinismo pode sobreviver ao atual clima político! O Discovery Institute recebeu um e-mail de alguém comentando a lista dos dissidentes de Darwin (Scientific Dissent from Darwin List), na qual mais de 600 cientistas PhD de várias áreas concordam que são “céticos quanto à afirmação de que mudanças aleatórias e a seleção natural poderiam explicar a complexidade da vida”. O autor do e-mail, cético do ceticismo-evolucionista, escreve: “Eu sou um matemático e certamente NÃO estou qualificado para assinar tal lista. Apenas biólogos evolucionistas estão qualificados para dar respostas.” Uma vez que a lista dos dissidentes de Darwin contém indivíduos formados em biologia evolucionária, a questão é: “A objeção do autor do e-mail é válida?”
A verdade é que a matemática tem uma forte tradição em fazer críticas convincentes da biologia evolucionária. Afinal de contas, a teoria de Darwin da evolução através da seleção natural é fundamentalmente baseada em um algoritmo que usa um processo matemático de tentativa e erro para tentar produzir complexidade. A genética de populações é repleta de matemática. De fato, uma das críticas sobre os alegados fósseis transicionais de baleias é que eles representariam mudanças evolutivas em uma escala de tempo muito rápida para ser matematicamente factível. Ao que parece, não há boas razões para que formados em matemática não possam comentar sobre a habilidade do processo de seleção-mutação neodarwiniano em gerar a complexidade da vida.
NPG P1207; Sir Peter Brian Medawar by Bernard Lee ('Bern') Schwartz
Sir Peter Medawar
Um dos mais conhecidos debates matemáticos sobre evolução ocorreu no Simpósio Wistar (Wistar Symposium), em 1966, na Filadélfia, em que matemáticos e outros cientistas de áreas afins congregaram para avaliar se a teoria neodarwiniana é matematicamente viável. A conferência foi presidida pelo ganhador do prêmio Nobel, Sir Peter Medawar. O consenso geral de muitos participantes da reunião foi de que o neodarwinismo simplesmente é matematicamente insustentável.
Os registros daquela conferência,Mathematical Challenges to the Neo-Darwinian Interpretation of Evolution(“Desafios Matemáticos à Interpretação Neo-darwiniana da Evolução”, Wistar Institute Press, 1966, No. 5), reportam vários desafios à evolução, apresentados por respeitados matemáticos e outros acadêmicos da conferência. Por exemplo, o presidente da conferência Sir Peter Medawar afirma logo no início:

“A causa imediata para esta conferência é o senso difundido de insatisfação com relação ao que tem sido aceito como teoria evolucionária no mundo de língua-inglesa, a chamada Teoria Neodarwiniana… Há objeções feitas por colegas cientistas que sentem que, na teoria atual, algo está faltando… Estas objeções à teoria neodarwiniana atual são muito amplamente difundidas entre os biólogos em geral; e não devemos, penso eu, solucioná-las. O simples fato de realizarmos esta conferência é evidência de que não iremos solucioná-las.” (Sir Peter Medawar, “Remarks by the Chairman”, in Mathematical Challenges to the Neo-Darwinian Interpretation of Evolution, Wistar Institute Press, 1966, No. 5, pg. xi, emphasis in original)
Vários cientistas, dentre eles alguns matemáticos, comentaram sobre alguns problemas com o neodarwinismo:
“Uma maneira alternativa de olhar para o genótipo é como um algoritmo gerador, ao invés de um diagrama; uma receita para produzir um organismo vivo do tipo certo no ambiente adequado para seu desenvolvimento é um exemplo. Assumindo esta hipótese, o algoritmo deve ser escrito em alguma linguagem abstrata. A biologia molecular pode nos ter fornecido o alfabeto desta linguagem, mas é um longo trajeto do alfabeto até à compreensão do idioma. Não obstante, uma linguagem tem regras, e estas são as maiores restrições num conjunto de mensagens possíveis. Nenhuma linguagem formal existente pode tolerar mudanças aleatórias nas sequências de símbolos que expressam as sentenças. Seu significado é quase que invariavelmente destruído. Quaisquer mudanças devem seguir leis sintáticas. Eu poderia conjecturar que o que alguém pode chamar de “gramática genética” tem uma explicação determinística e não deve sua estabilidade à pressão da seleção atuando em variações aleatórias”. (Murray Eden, “Inadequacies as a Scientific Theory”, in Mathematical Challenges to the Neo-Darwinian Interpretation of Evolution, Wistar Institute Press, 1966, No. 5, pg. 11)
“Requerer-se-iam milhares, talvez milhões, de mutações sucessivas para produzir até mesmo a mais simples complexidade que observamos na vida hoje. Parece que, ingenuamente, não importa o quão grande seja a probabilidade de uma única mutação, ainda que fosse tão grande quanto à metade, ter-se-ia esta probabilidade elevada à milionésima potência, o que é tão próximo a zero que as chances do processo ocorrer parecem ser inexistentes.” (Stanislaw M. Ulam, “How to Formulate Mathematically Problems of Rate of Evolution”, in Mathematical Challenges to the Neo-Darwinian Interpretation of Evolution, Wistar Institute Press, 1966, No. 5, pg. 21)
“Não conhecemos qualquer princípio geral que explique como unir o diagrama visto por objetos tipográficos e as coisas que eles supostamente controlam. O único exemplo que temos para uma situação similar (fora da evolução da vida) é a tarefa de profissionais de inteligência artificial em criar sistemas adaptáveis. Sua experiência converge com a maioria dos observadores: sem uma programação prévia, nada de interessante pode ocorrer. Assim, para concluir, acreditamos que há uma falha (gap) considerável na teoria neodarwiniana da evolução, e que este gap não pode ser solucionado com a atual concepção de biologia.” (Marcel Schutzenberger, “Algorithms and Neo-Darwinian Theory”, in Mathematical Challenges to the Neo-Darwinian Interpretation of Evolution, Wistar Institute Press, 1966, No. 5, pg. 75)
Estes são fortes argumentos de acadêmicos qualificados para avaliar a habilidade matemática de processos aleatórios/seletivos para produzir complexidade. Enquanto biólogos evolucionistas e outros tipos de biólogos podem produzir vários insights em biologia evolucionária, cientistas de outras áreas, não biólogos, bem como matemáticos, estão certamente qualificados para comentar sobre a falseabilidade da evolução neodarwiniana.

Nota do blog Engenharia Filosófica: O matemático Granville Sewell, da Universidade do Texas, El Paso, aponta em um de seus artigos: “Conheço muitos matemáticos, físicos e cientistas da computação que, como eu, estão atônitos por a explanação de Darwin para o desenvolvimento da vida ser tão aceita nas ciências biológicas” (“A Mathematician’s View of Evolution”, The Mathematical Intelligencer, Vol 22 (4) (2000)). O motivo para a “cegueira” dos biólogos evolucionistas, apesar das evidências de outros campos da ciência, foi muito bem resumida pelo jornalista Michelson Borges, ao comentar sobre o Simpósio Wistar, de 1966, no debate entre matemáticos e darwinistas sobre  a probabilidade do olho ter evoluído por meio da acumulação de pequenas mutações: “Ou seja: a evolução é um fato;  o olho está aqui; então, independentemente do que digam os matemáticos, o olho evoluiu. Ponto final” (A História da Vida, p. 46).

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Declarações incorretamente atribuídas a Ellen G. White

Declarações de pessoas bem conhecidas são por vezes distorcidas e, com freqüência, declarações feitas por outras pessoas são atribuídas a elas. Quase que desde o início do trabalho de Ellen G. White, tem havido escritos apócrifos do Espírito de profecia, declarações incorretamente atribuídas a ela, ou materiais deliberada ou inadvertidamente adulterados. Um desses casos foi descrito na página 57 do livro Testemunhos para Ministros. Podemos reconhecer como genuínos somente aqueles materiais de Ellen G. White que podem ser localizados em fontes publicadas ou não-publicadas que conhecemos como autênticas.
Apresentamos aqui uma lista de itens a respeito dos quais os depositários dos escritos de Ellen G. White têm freqüentemente recebido indagações. Estes estão agrupados de acordo com os cinco tipos mais comuns.

Testemunhos que dependem inteiramente da memória

A memória até mesmo das pessoas mais piedosas pode não ser inteiramente confiável, por isso informações sobre as fontes para certas declarações atribuídas a Ellen G. White podem provar-se úteis:
Refeição sabática em outro planeta: O relato, baseado na memória de certo indivíduo, de que Ellen G. White declarou em conversa à mesa de refeições que os habitantes de outros mundos colhiam frutos para entretenimento dos santos transladados na jornada rumo ao céu, não tem apoio, é fantasioso. A afirmação de que essas palavras foram registradas através de taquigrafia não tem fundamento. Ellen G. White faz uma simples declaração na página 16 do livro Primeiros Escritos : “Estivemos sete dias ascendendo para o mar de vidro”. Nenhuma menção é feita por Ellen G. White de que o sábado foi passado em viagem.
Autoria do livro de Daniel e Apocalipse : O relato de um antigo pastor de que Ellen G. White declarara em sua presença que vira um anjo ao lado do Pastor Urias Smith, inspirando-o a escrever o livro Daniel e Apocalipse, é seriamente rebatido pelos fatos históricos. Contraria as autênticas declarações de Ellen G. White nas quais ela remove o livro de Smith da categoria de “inspirados”. Entretanto, a Sra. White tinha alta consideração por esse livro e o recomendava livremente. Ver p. 123 do livro O Colportor Evangelista.
Identificação de Melquisedeque: É dito que Ellen White identificou Melquisedeque como o Espírito Santo. Isso é baseado na memória de um homem. Não há apoio algum para tal ensino nos escritos dela, e a declaração de memória é anulada pelas negações de outros que estiveram presentes quando supostamente Ellen G. White fez essa declaração. Ela não identifica Melquisedeque. Ver a declaração de Ellen G. White no SDA Bible Commentary, vol. 1, p. 1093, onde ela diz que Melquisedeque não era Cristo.
Esconderijo nas montanhas para o tempo de angústia: Afirmações de que Ellen White designou algum local particular nas montanhas como um esconderijo seguro para o tempo de angústia não têm apoio em qualquer de seus escritos, publicados ou não publicados.
Obra deve terminar primeiro no Sul: Foram feitas afirmações de que Ellen G. White declarou que a obra seria terminada primeiramente no Sul dos Estados Unidos. Se a declaração foi feita, provavelmente foi feita durante uma conversa, pois não há apoio conhecido para este relato nos escritos de Ellen White, publicados ou não publicados.

Uma associação de idéias

Relatos são freqüentemente divulgados os quais baseiam-se no que se pode chamar de associações de idéias.
Situação dos estudantes em preparo para o trabalho do Senhor: Muitos crêem que a Sra. White ensinou que se o Senhor voltar enquanto os jovens estão na escola, eles serão considerados como se estivessem trabalhando na seara. Não há nenhum escrito conhecido que possa confirmar isso. Esse conceito, provavelmente correto, pode encontrar apoio numa associação de idéias. Ver emO Desejado de Todas as Nações, p. 74:
“Quando trabalhava ao banco de carpinteiro, fazia tanto a obra de Deus, como quando operava milagres em favor da multidão. E todo jovem que segue o exemplo de Cristo na fidelidade e obediência em Seu humilde lar, pode reclamar aquelas palavras proferidas a respeito dEle, pelo Pai, por intermédio do Espírito Santo: ‘Eis aqui o Meu Servo a quem sustenho, o Meu Eleito, em quem se compraz a Minha alma.’ Isa. 42:1″
Legalizações do álcool e leis dominicais: Relatos diretamente ligando a revogação da Emenda de Proibição da Constituição dos Estados Unidos com a aprovação da lei dominical nacional são sem fundamento. Isso pode estar associado com a declaração geral feita em Profetas e Reis, p. 186, que salienta a “atrevida impiedade” de legisladores em qualquer lugar e em qualquer tempo que promulgariam “leis para a salvaguarda do supostamente santificado primeiro dia da semana” mas que ao mesmo tempo “estão também legislando no sentido de legalizar o comércio do álcool”.
Alvos específicos de iminentes catástrofes: Relatos de que, em predições, Ellen G. White identifica áreas específicas como alvo ou centro de terremotos, incêndios, enchentes, maremotos, submersão pelo mar, ou invasão inimiga são sem fundamento algum, e devem se originar na associação de idéias com declarações mais generalizadas nos livros de Ellen G. White que tratam de catástrofes futuras. Incêndios na cidade de Nova Iorque são mencionados em Testemunhos Seletos, vol. 3, p. 281-282, e no que se refere à futura destruição de certas cidades, os adventistas do sétimo dia foram aconselhados a não estabelecerem grandes instituições no coração da cidade de Los Angeles. Em Life Sketches of Ellen G. White, p. 411-414, encontram-se declarações de Ellen G. White a cerca da ligação de áreas específicas com predições de catástrofes.
Contrariamente a relatos sem sustentação, Ellen G. White nunca fez predições concernentes à destruição das torres gêmeas de Nova Iorque ou de qualquer outro lugar do mundo. Ela descreveu cenas envolvendo a ruína de “magnificentes” e “altivos edifícios” (ver referências acima), mas em nenhum lugar ela identifica nominalmente os prédios.

Trechos removidos do seu contexto

Não raras vezes indivíduos baseiam sua compreensão dos ensinos de Ellen G. White em fragmentos de uma sentença ou declarações isoladas removida do seu contexto. Escrevendo acerca de certos indivíduos que fizeram mal uso de seus escritos, ela disse que estavam “pegando uma sentença aqui e ali, tirando-a de sua devida ligação, e aplicando-a segundo sua idéia”. – Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 44.
Eventos à meia-noite: Algumas pessoas equivocadamente pensam que a Sra. White indicou que Cristo voltaria à meia noite. Uma leitura cuidadosa de sua declaração nos livros Primeiros Escritos, p. 285, e O Grande Conflito, p. 635-636, revela que o povo de Deus é liberto da sentença de morte “à meia-noite”, e os eventos a partir daquela hora acontecem rapidamente até que, de acordo com O Grande Conflito, p. 640, “Surge logo no Oriente uma pequena nuvem negra, aproximadamente da metade do tamanho da mão de um homem.”
Ovos sobre a mesa: Tirando do contexto do parágrafo e do capítulo a sentença de Testimonies, vol. 2, p. 400, onde se diz: “Não coloque ovos sobre a sua mesa”, muitas pessoas têm distorcido o conceito da posição de Ellen G. White expressa claramente nos livros A Ciência do Bom Viver, p. 320,Testemunhos Seletos, vol. 3, p. 138-139, ou Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p. 460-461,Testemunhos Seletos, vol. 3, p. 361-362, onde ela reconhece o correto uso de ovos no regime dietético normal.
Ellen G. White e os 144.000: Em lugar nenhum dos escritos de Ellen G. White encontramos uma declaração que ateste o fato de que ela seria uma [pessoa] dentre os 144.000. Conforme está registrado no livro Primeiros Escritos, p. 40, o anjo disse a ela, quando em visão ela parecia estar visitando outros planetas e manifestou desejo de permanecer ali: “Se fores fiel, juntamente com os 144.000 tereis o privilégio de visitar todos os mundos…” Ver também a declaração de Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 263.

Escritos falsamente atribuídos

No decorrer dos anos, algumas pessoas têm copiado e usado parágrafos escolhidos dos artigos de Ellen G. White publicados na revista Review e outros periódicos. Algumas pessoas copiam também declarações selecionadas escritas por outras pessoas sem notar quem é o autor e erroneamente atribuem estas a Ellen G. White. Provérbios e dizeres freqüentemente citados também têm sido incorretamente atribuídos a ela.
Sinal indicando o fim da graça: Uma declaração publicada no suplemento da Review and Herald, de 21 de junho de 1898, quanto ao fato de que trevas literais cobrirão a Terra como um sinal para o povo de Deus de que o tempo da graça terminou, tem sido erroneamente atribuído a Ellen G. White. Foi na verdade escrita por um pastor adventista de sétimo dia. Tal ensino é contrário a declaração dela em O Grande Conflito, p. 615, onde diz: “Quando a decisão irrevogável do santuário houver sido pronunciado, e para sempre tiver sido fixado o destino do mundo, os habitantes da Terra não o saberão”.
Anjos reorganizando ambientes e mudando circunstâncias: Estas palavras e a declaração que segue de que as orações pelas “almas desinteressadas” alojadas no altar do céu serão respondidas antes de o incensário ser atirado, não são da pena de Ellen G. White; são, porém, expressões de S. N. Haskell, na p. 147 de seu livro History of the Seer of Patmos (História do Vidente de Patmos).
Última obra mediadora de Cristo: Até a época da publicação deste Index, uma declaração atribuída a Ellen G. White, apresentando várias fontes de referência como Review and Herald, 1890, 1898, ou 1912, indicando que a última obra mediadora de Cristo será em favor dos jovens que se extraviaram do redil, não foi localizada em nenhuma das fontes de Ellen G. White. Os indagadores têm sido direcionados ao livro Evangelismo, p. 693: “Quando romper realmente sobre nós a tempestade da perseguição… muitos dos que se extraviaram do redil voltarão a seguir o grande pastor”. As declarações amplamente divulgadas atribuídas a Ellen G. White devem ser de algum outro autor.
Conselho sobre planejamento e vida: Interessante é que o conselho para viver “como se você ainda tivesse 1.000 [anos] pela frente, mas comportar-se como se soubesse que morreria amanhã”, originou-se nos escritos de Mother Ann Lee of the Shakers, não em fontes de Ellen G. White. Ver a revista Time, de 28 de junho de 1961, p. 53. Ver também em Testemunhos Seletos, vol. 2, p. 60 a seguinte declaração de Ellen G. White: “Devemos vigiar e trabalhar e orar como se este fosse o último dia que nos fosse concedido”.
Importância de estudar a questão dos 144.000: Um parágrafo selecionado de certa carta de uma das secretárias da Sra. White, expressando sua opinião quanto a importância de estudar a questão dos 144.000 tem sido apresentado em certas publicações sendo de autoria de Ellen G. White. Ver Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 174-175, para conhecer a posição de Ellen G. White.
Planetas habitados em nosso sistema solar: Contrariamente a algumas afirmações, Ellen White não deu nome a nenhum dos “mundos” que ela viu em visão. José Bates, um capitão da marinha aposentado e que tinha um interesse especial por astronomia, estava presente em pelo menos uma dessas visões e relatou que identificara como sendo Júpiter, Saturno e Urano os planetas por ela descritos. Alguns têm ligado equivocadamente as afirmações de Bates com as descrições de Ellen White sobre um “lugar” habitado por seres “nobres” e “majestosos”. No entanto, ao se referir à suas visões, ela diz apenas que ela foi levada a um ” lugar ” “fulgurante e glorioso” (itálico acrescentado). Ela não identifica o “lugar” como sendo Júpiter, Saturno ou qualquer outro planeta do nosso sistema solar. O que ela descreve é: “O Senhor me proporcionou uma vista de outros mundos. Foram-me dadas asas, e um anjo me acompanhou da cidade a um lugar fulgurante e glorioso. A relva era de um verde vivo, e os pássaros gorjeavam ali cânticos suaves. Os habitantes do lugar eram de todas as estaturas; nobres, majestosos e formosos. Ostentavam a expressa imagem de Jesus, e seu semblante irradiava santa alegria, que era uma expressão da liberdade e felicidade do lugar”.Primeiros Escritos, p. 39, 40.
Oração é a resposta para cada problema na vida: Um parágrafo concernente ao poder da oração que se inicia da seguinte forma: “A oração é a resposta para todos os problemas da vida”, não é de autoria de Ellen G. White, mas de um autor anônimo citado em um artigo publicado na Review and Herald, de 7 de outubro de 1965. A frase, como tem circulado, é datada incorretamente de 7 de outubro de 1865. Uma declaração de Ellen G. White sobre oração publicada no livro Caminho a Cristo, p. 100 diz o seguinte: ” Conte ao Senhor acerca de suas necessidades, alegrias, tristezas, cuidados e temores…. Não há capítulo demasiado obscuro para que Ele não o possa entender; dificuldade alguma por demais complicada para que a possa resolver. Nenhuma calamidade poderá sobrevir ao mais humilde de Seus filhos, ansiedade alguma que lhe perturbe a paz de espírito, nenhuma alegria que possa ter; nenhuma oração sincera que lhe escape dos lábios, sem que seja observada pelo Pai celeste, ou sem que Lhe atraia o imediato interesse”.
Os adventistas do sétimo dia devem deixar os Estados Unidos: Uma declaração de que “aproxima-se o dia, e não está muito longe em que os adventistas do sétimo dia desejarão … estar fora dos Estados Unidos”, tem sido erroneamente atribuída a Ellen G. White. Mas é parte do sermão de A. T. Jones, publicado no General Conference Bulletin, em 16 de abril de 1901, p. 265-266.
Uso dos escritos de Ellen White nos púlpitos: Uma declaração proposital de Ellen G. White supostamente escrita em “Proper Use of the Testimonies”, p. 4-5 dizendo que os seus escritos não deveriam ser lidos no púlpito, é falso.

Pura ficção

Algumas declarações que se diz serem da pena de Ellen G. White, são ficção.
Apostasia de Igrejas e Associações: A informação de que Ellen G. White predisse a apostasia de igrejas e Associações inteiras não tem apoio. Ler declarações concernentes à sacudidura emPrimeiros Escritos, p. 269-273; e em Testemunhos Seletos, vol. 3, p. 224, as seguintes palavras: “Grupo após grupo do exército do Senhor se juntava ao inimigo e tribo após tribo das fileiras do adversário se unia ao povo de Deus que guarda os mandamentos”.
Atitudes para com os pastores Jones e Waggoner: A declaração atribuída a Ellen G. White comparando a confirmada rejeição dos ensinos dos pastores Jones e Waggoner em 1888 e posteriormente, com a rejeição de Josué e Calebe por parte do povo de Israel não faz parte dos escritos de Ellen G. White. É produto de outro autor, cuja identidade é desconhecida. Várias linhas de raciocínio impressionantes, mas incorretas, têm sido usadas com relação a declaração divulgada.
A mensagem do alto clamor rejeitada: Mesmo havendo certas expressões parecidas as que estão escritas em Testemunhos para Ministros, p. 468-469, não há nos escritos de Ellen G. White uma declaração como a de “Taking up a Reproach”, predizendo que a mensagem do anjo de Apocalipse 18:1 seria “ridicularizada, contrariada e rejeitada pela maioria”.
Partido ou nome do último presidente dos Estados Unidos: Relatos de que Ellen G. White indicou direta ou indiretamente o nome de família ou o partido político de quem seria o presidente dos Estados Unidos por ocasião das cenas finais da Terra, são pura ficção.
França e a liberdade religiosa: Relatos de que Ellen G. White declarou que a França seria o último lugar onde haveria liberdade religiosa não tem apoio algum.
Fonte: Centro White.

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#StarWars: religião é algo que se pratica só dentro da igreja? Minhas diversões não têm nada a ver com minha religiosidade?

Vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus (Ef 5.15,16).

Vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo,
porque os dias são maus (Ef 5.15,16).

Uma igreja de Berlim, na Alemanha, teve uma celebração inusitada no domingo passado: um culto “Star Wars”. Isso mesmo! Dois futuros pastores quiseram mostrar aos fiéis as supostas analogias entre o cristianismo e a saga “Star Wars”. A cerimônia, intitulada “O despertar da Força: culto pelo episódio VII de ‘Star Wars’”, foi realizada na Igreja de Sion, no bairro de Mitte. No culto, foram exibidas cenas do sexto filme da saga e até um sorteio foi feito entre aqueles que compareceram fantasiados de algum personagem da franquia. O prêmio? Entradas para assistir ao episódio 7: “O Despertar da Força”, que estreou mundialmente nesta quarta-feira, levando legiões de fãs às salas de cinema.

A banalização da religião, infelizmente, é um fenômeno interdenominacional. Enquanto uns mercantilizam a fé e apregoam teologias absurdas de prosperidade e barganha com Deus, e outros criam bizarrices como “cusparadas santas” e paletós que derrubam crentes em êxtase, há aqueles que insistem numa dicotomia artificial entre sagrado/espiritual e secular, como se uma “área” da vida não afetasse a outra. Você acha mesmo que neste grande conflito em que estamos imersos, em que forças do mal e forças do bem lutam para conquistar o coração de cada ser humano, haveria algo realmente “neutro”? Será que posso buscar Deus numa igreja ao mesmo tempo em que não dou a mínima para os conteúdos que absorvo em meus momentos de lazer? Ellen White escreveu o seguinte: “Satanás tem mais sucesso quando faz seus ataques no momento em que as pessoas estão sem ter nada para fazer” (Os Escolhidos, p. 94). Sim, nossos passatempos, nossos momentos de recreação, os filmes, os livros, etc., terão inevitavelmente algum impacto sobre nossos pensamentos, e os pensamentos habitualmente repetidos, os conteúdos em que nos demoramos acabarão por moldar nosso caráter. Numa guerra espiritual, tudo é espiritual. A pessoa com quem escolho namorar e/ou casar, a casa que decido financiar, o carro que desejo comprar, a carreira na qual vou investir… cada uma dessas coisas tem potencial para edificar ou destruir a espiritualidade. E por isso mesmo deve ser alvo de muitas orações. Tudo na vida de um cristão deve ser feito com oração e sob a orientação de Deus e Sua Palavra. Para um não religioso, tudo é material. Para um religioso, tudo é “espiritual”. Simples assim? Nem tanto…

Detalhes nada elementares - título do filme: "O despertar da força [NEGRA]". O vilão continua empunhando um sabre de luz... porém, agora, essa arma tem a forma de uma cruz. Sim, uma CRUZ! Pior. Uma cruz vermelha invertida! Um símbolo do satanismo! Você notou?

Detalhes nada elementares – título do filme: “O despertar da força [NEGRA]”. O vilão continua empunhando um sabre de luz… porém, agora, essa arma tem a forma de uma cruz. Sim, uma CRUZ! Pior. Uma cruz vermelha invertida! Um símbolo do satanismo! Você notou?

Depois que postei no YouTube dois vídeos sobre a influência de filmes (especialmente os de super-heróis), houve uma enxurrada de comentários nas redes sociais (clique aqui e aqui para ver os tais vídeos). A maioria das pessoas parece concordar com minhas ideias e com as advertências que fiz, mas outras fizeram críticas com base num “argumento” bastante recorrente: o argumento “nada a ver”. Para alguns cristãos, não tem “nada a ver” aquilo que assistimos, o tipo de músicas que ouvimos, nem o que comemos ou bebemos e as pessoas com quem nos relacionamos. Para alguns desses, o que precisamos é pregar a Bíblia e não ficar criticando a cultura que nos rodeia nem as produções midiáticas que seriam meros passatempos inocentes. Concordo que em muitos de nossos púlpitos têm sido apresentados sermões carentes da verdadeira teologia bíblica; que muitos pregadores têm substituído os poderosos sermões expositivos por mensagens água com açúcar de cunho existencialista. Sim, esse é um problema. Mas resolveremos um problema ignorando o outro? “Em vez de criticar produtos culturais como os filmes, temos que pregar a Bíblia.” Essa me parece uma típica falácia non sequitur. Os próprios autores bíblicos, especialmente os profetas, foram críticos dos costumes de seu tempo. Denunciaram a corrupção, a violência, a perversidade, a imoralidade, a idolatria, as injustiças… Curiosamente, todas essas coisas estão presentes em muitos produtos da indústria cultural de nosso tempo. Será que alguns cristãos atuais teriam coragem de dizer para um profeta: “Nada a ver! Deixe de falar dessas coisas e pregue a Bíblia. Deixe que as pessoas se divirtam!”

Você duvida mesmo que os entretenimentos “inocentes” tenham influência sobre as pessoas? Veja só esta declaração da Emily Barbosa Borges, postada em seu Facebook: “Eu sempre fui apaixonada pelos desenhos das princesas da Disney. Hoje, não sei por que, veio uma música na minha cabeça do desenho do Aladdin, e qual não foi a minha surpresa ao cantar a música e falar a palavra ‘orgia’! Eu pensei ‘é isso mesmo?’. Sim, mamães, cuidado com os desenhos que as crianças assistem! Para quem não acredita em mim, aqui está o vídeo da abertura do desenho, no qual ele canta: ‘As noites na Arábia e os dias também são sempre tão quentes, mas fazem com que a gente se sinta tão bem, tem um belo luar e orgias demais!”

Logicamente que a pessoa não vai se envolver em orgias pelo simples fato de que essa palavra está “trancada” na mente dela por causa de uma musiquinha de desenho animado. Mas será que esse e outros conteúdos vão contribuir para que estas palavras de Paulo sejam realidade em nossa vida? “Nós, porém, temos a mente de Cristo” (1Co 2:16), e: “Seja a atitude [sentimento] de vocês a mesma de Cristo Jesus” (Fp 2:5). Para ter a mente, as atitudes e o sentimento de Jesus, precisamos passar tempo com Ele. Não ter tempo para a comunhão com Cristo (tempo que muitas vezes é roubado pelos filmes, livros, seriados, videogames, etc.) já é um problema, porque sem Ele nada podemos, nada somos. Agora, gastar esse tempo com produções vazias e, pior, anticristãs, é cometer um duplo grave erro.

Quer um filtro seguro? Aqui está: “Tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas” (Fp 4:8).

Aí está o conselho divino. Você escolhe se ele tem tudo a ver ou se é “nada a ver”.

Fonte: Michelson Borges.