Considerações sobre entrevista do Mário Sérgio Cortella no Jô Soares

No ano de 2010, mais precisamente no dia 4 de novembro, o educador e filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella concedeu uma entrevista ao programa do Jô Soares, da TV Globo, na qual falou sobre ética, moralidade, educação e bíblia (esta mais apenas como fonte de exemplos).

Apesar de já passados 4 anos, o tema é de total relevância e, sendo assim, decidi publicar algumas considerações.

Confesso não ter visto a entrevista na época, entretanto sua gravação, que está no YouTube, tem sido compartilhada nas redes sociais e, por meio destas, tive a oportunidade de assistir pela primeira vez neste final de semana. O vídeo é curto (tem apenas 7:58 minutos) e, para prosseguir na leitura do post, sugiro que o assista antes (abaixo).

Como citei acima, Mário Sérgio Cortella, 60 anos, é um renomado professor universitário, filósofo e escritor brasileiro. Atualmente é comentarista da Rádio CBN e há uma dezena de vídeos disponíveis de suas participações no programa Café Filosófico, da TV Cultura.

Como ele bem citou o apóstolo Paulo no final do vídeo, quero introduzir minhas considerações meditando num texto do mesmo autor:

“Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos.” Filipenses 2:3 (NVI)

Não publico os comentários a seguir com o intuito de diminuir, polemizar ou ridicularizar as palavras da pessoa e do profissional Sr. Cortella. Faço-o com a motivação do exercício do conhecimento, visando o bem comum e harmonia, sempre com a busca racional da verdade e seu fim último: a felicidade.

Ética, Moralidade e o ‘Certo e Errado’

O prof. Cortella inicia a entrevista definindo Ética como sendo os princípios norteadores para que tomemos decisões para as grandes questões da vida: o quero, o devo e oposso. Na sequência, define Moralidade como “a prática de uma ética”. É importante definir (ou diferenciar) ética e moral. Uma rápida pesquisa no Wikipédia, que para estes temas apresenta fontes sólidas, pode auxiliar na exegese dos termos êthos e êthica, que pelo tempo e espaço não aprofundarei aqui. Entretanto, segundo o filósofo catalão José Ferrater Mora, os termos ‘ética’ e ‘moral’ são usados, por vezes, indistintamente. Contudo, o termo moral tem usualmente uma significação mais ampla que o vocábulo ‘ética’. A moral é aquilo que se submete a um valor [1]. O professor da FEI, Rafael Marcoccia, Mestre em Ciências Sociais pela PUC/SP, define:

A moralidade está no definir-se de uma atitude justa. E qual é a atitude justa no que diz respeito ao conhecimento? Na aplicação ao campo do conhecimento, esta é a regra moral: amor à verdade do objeto maior que o nosso apego às opiniões que já formamos sobre ele. Aderir a verdade é um exercício da razão humana, mas também de sua liberdade.” [2]

O texto do prof. Marcoccia interliga, ou melhor, faz a interdependência entre verdademoralidade, ao passo que muitas perguntas passam a ser formuladas.

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A pergunta emblemática do Jô Soares

Aos 28 segundos do vídeo, o apresentador Jô Soares fez a pergunta categórica: “Mas quem define isso?” (isto é, a moralidade, a ética – em seu sentido geral?). A resposta do prof. Cortella foi que tais valores éticos/morais são definidos pela sociedade, utilizando de sua legislação, conforme os costumes. A grande questão aqui é que, neste sentido, é aberta a porta da relativização da moralidade e, por consequência, as noções de certo e errado – posso e devo – se tornam material passível da subjetividade humana e seus gostos – o quero é quem manda. O triângulo proposto pelo professor no início do vídeo passa a não existir em sua essência, uma vez que definições como justiça, liberdade e direito à vida, por exemplo, que são valores morais objetivos por definição, poderiam ser objeto de gosto por parte de qualquer um, e o sentido amplo de certo e errado é relativizado. Doutor em filosofia e teologia, Norman Geisler declara:

“Sem um padrão objetivo de significado e moralidade, a vida é sem sentido e não há nada absolutamente certo ou errado. Tudo é simplesmente uma questão de opinião. O que queremos dizer é que todas as pessoas foram marcadas com um senso fundamental de certo e errado.[…] De fato, sem a lei moral, ninguém tem uma base objetiva para ser favorável ou contrário a nada.” [3]

O também filósofo e escritor William Lane Craig, argumenta:

“Antes que você possa determinar o que está certo e o que está errado, você tem de saber se o certo e o errado realmente existem. […] Hoje muitas pessoas encaram o certo e o errado não como uma questão de fato, mas de gosto. Não há uma questão objetiva, por exemplo, em se achar que obrócolis é gostoso. Ele é gostoso para algumas pessoas, mas ruim para outras. […] As pessoas acham que o mesmo acontece com os valores morais. […] Ora, se Deus não existir, então creio que estas pessoas estão absolutamente corretas. Na ausência de Deus, tudo se torna relativo.” [4]

Sem um referencial absoluto, certo e errado são meramente especulativos, e estão sujeitos aos gostos – o quero – , e o devo e posso, em última análise, não existem.

O exemplo de Sócrates

i208756Há 2 pontos importantes no argumento do prof. Cortella no exemplo de Sócrates e vou apurá-los separadamente.

  1. “o tempo e sociedade definem os padrões morais (bem como hoje)”;
  2. “o homossexualismo na Grécia antiga não era imoral, há 30 anos era, e hoje não é mais”;

A afirmação (1) é embasada no fato de Sócrates ter um amante, ainda que casado com uma mulher. Tal episódio não exclui o entendimento daquele filósofo grego de suas relações naturais (relacionamento sexual entre homem e mulher), de forma que o fato apenas demonstra, com clareza, que seu entendimento de que um relacionamento natural/normal seria com uma mulher, e que seu afeto por outro homem era, apesar de anti-natural, sua vontade. Não é necessário entrar em uma discussão moral para concordar com tal asserção, uma vez que a continuidade da raça humana depende disso – do relacionamento entre homem e mulher.

A afirmação (2) comete o equívoco de avaliar a moralidade com as lentes da sociologia. Norman Geisler argumenta:

“Um erro comum dos relativistas é confundir comportamento e valor, ou seja, eles confundem aquilo que é com aquilo que deveria ser. O que as pessoas fazem está sujeita a mudanças, mas aquilo que deveriam fazer, não. Essa é a diferença entre sociologia e moralidade. A sociologia édescritiva; a moralidade é prescritiva.” [5]

Ele acrescenta:

“Naturalmente, todo mundo desobedece a lei moral em algum aspecto – desde contar mentiras brancas até cometer assassinato. Mas isso não significa que não exista uma lei moral imutável; simplesmente significa que todos nós a violamos. Todo mundo comete erros matemáticos também, mas isso não quer dizer que não existam regras imutáveis na matemática.” [6]

Assim, remetendo ao que foi explorado no tópico A pergunta emblemática do Jô Soares, a consequência imediata do entendimento da moralidade objetiva (i.e,existência de Deus) com vistas à homossexualidade resulta no seguinte silogismo:

(1) Toda lei possui o criador da lei;
(2) Existe uma lei moral;
(3) Portanto, existe o Criador da lei moral (i.e, Deus);
(4) A vontade de Deus está expressa na Bíblia;
(5) A Bíblia condena a prática homossexual;
(6) Logo, a prática homossexual é contrária à vontade de Deus, ou seja, é errada.

Veja que o silogismo acima só faz sentido se (a) admitirmos que há uma moralidade objetiva e (b) aceitarmos Deus como legislador dessa Lei Moral.  William Lane Craig complementa:

“Assim, se Deus não existir, o certo e o errado também não existem. Vale qualquer coisa, inclusive a homossexualidade. Logo, um dos melhores modos de defender a legitimidade do estilo de vida homossexual é se tornar um ateu. Mas o problema é que muitos defensores da homossexualidade não querem se tornar ateus. Na verdade, querem afirmar que o certo e o errado existem.” [7]

Cabe ao homossexual honesto, consciente da razão como meio de se conhecer a verdade, avaliar o que foi escrito acima.

“Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”

O prof. Cortella fez alguns comentários felizes sobre a narrativa bíblica, entretanto, para um entendimento correto do termo “alma” nos relatos de Cristo, indico o vídeo do consultor bíblico adventista Leandro Quadros, apresentador do programa Na Mira da Verdade, neste link.

Afinal, de onde vem e qual o real problema do relativismo moral?

O naturalismo filosófico (i.e darwinismo, evolucionismo), que propõe causas naturais como explicação última da existência humana, desfigura a predisposição natural do ser humano, como atributo inerente de uma criatura (e não apenas matéria), de viver esta moralidade transcendente.

Convenhamos: admitir a existência de Deus é o mesmo que admitirmos que não temos autoridade de definir por nós mesmos o que é certo e errado. Infelizmente, a aceitação consciente (e até inconsciente!) das “verdades darwinistas” – da não-existência de Deus, que implica na inexistência de uma lei moral universal – permite que qualquer um evite a possibilidade de que qualquer coisa seja moralmente proibida.

Julian Huxley, um ex-líder darwinista, admitiu que a ‘liberdade’ sexual é uma motivação popular por trás do dogma evolucionista. Certa vez, quanto perguntado do por que as pessoas acreditam na evolução (i.e, ‘Deus não existe’), respondeu honestamente:

“A razão pela qual aceitamos o darwinismo, mesmo sem provas, é que não queríamos que Deus interferisse em nossos hábitos sexuais.” [9]

Lee Strobel, advogado e jornalista ex-ateu, compartilhava do mesmo pensamento:

“Estava mais do que feliz em agarrar-me ao darwinismo como desculpa para descartar a idéia de Deus, de modo que eu pudesse pôr em prática descaradamente a minha agenda de vida, sem restrições morais.” [10]

Por mais que as citações acima coloquem em evidência o real motivo de muitos (talvez não todos) os darwinistas não aceitarem as evidências da existência de Deus (dentre elas, o argumento moral), tal fato mostra que mesmo uma teoria científica, com apoio de boa parte (maioria) da comunidade científica internacional e que julga seus critérios científicos como argumento da uma ‘crença evolucionista’, no fundo, seus adeptos, muitas vezes, confessam suas reais motivações para tal.

Obviamente, não é necessário ser um darwinista para não crer em Deus e não aceitar a lei moral imposta por ele, quando assim O aceitamos.

C.S. Lewis, que dispensa apresentações, declarou:

“Os seres humanos, por toda a terra, possuem essa curiosa ideia de que devem comportar-se de certa maneira; eles realmente não podem se livrar disso. Em segundo lugar, que eles na verdade não se comportam dessa maneira. Eles conhecem a lei da natureza; eles a descumprem. Esses dois fatos são o fundamento de todo pensamento claro sobre nós mesmos e sobre o Universo no qual vivemos.” [11]

Considerações finais

Com certeza, não digitei 0,1% do que há disponível sobre o tema. Poderíamos, com certeza, ainda refletir sobre o assunto dentro de outras esferas, por exemplo a teológica. Entretanto, creio que os comentários aqui expostos mostram a posição cristã geral sobre o tema, e que os termos ética e moralidade estão diretamente associados a um Legislador Superior.

Referências

  1. FERRATER MORA, José. Dicionário de filosofia. Trad. António José Massano e Manuel Palmeirin. Lisboa: Dom Quixote, 1978.
  2. MARCOCCIA, Rafael; FONSECA, Henriete. Curso de filosofia. São Bernardo do Campo: Centro Universitário da FEI, 2014.
  3. GEISLER, Norman; TUREK, Frank. Não tenho fé suficiente para ser ateu. São Paulo: Vida, 2006.
  4. CRAIG, William Lane. Apologética para questões difíceis da vida. São Paulo: Vida Nova, 2010.
  5. Ibid.
  6. Ibid.
  7. Ibid.
  8. Ibid.
  9. Apud. D. James Kennedy, Skeptics Answered. Sisters, Ore.: Multnomah, 1997, p.154.
  10. STROBEL, Lee. Em defesa da fé. Editora Vida.
  11. LEWIS, C.S. Cristianismo puro e simples. Martins Fontes, 2005.

Fonte: Engenharia Filosófica.

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