março 6, 2026

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Paradoxo de Zenão (Aristóteles, Parmênides, Heráclito e Zenão de Eleia)

O paradoxo de Zenão, um conjunto de argumentos do filósofo grego Zenão de Eleia, busca demonstrar a “irracionalidade” do movimento e da multiplicidade ao mostrar que, logicamente, seria impossível um objeto percorrer uma distância ou uma flecha voar.

O paradoxo mais famoso, Aquiles e a tartaruga, postula que um corredor rápido, por mais veloz que seja, jamais ultrapassará uma tartaruga com uma pequena vantagem inicial, pois a cada avanço, a tartaruga percorrerá uma nova distância, criando uma sequência infinita de pequenas distâncias a serem percorridas.

Os paradoxos de Zenão foram criados com o objetivo de questionar as noções de multiplicidade, divisibilidade e movimento, defendidas por outros pensadores da época. O filósofo buscava provar, através da lógica, que o movimento percebido pelos sentidos é, na verdade, uma ilusão, e que a realidade fundamental é a unidade do ser, sem divisão ou pluralidade.

Paradoxo de Aquiles e a Tartaruga

Em uma corrida, Aquiles, o herói grego, concede uma pequena vantagem a uma tartaruga.

O raciocínio de Zenão: Para Aquiles alcançar a tartaruga, ele deve primeiro percorrer a distância inicial que o separava dela. No entanto, durante o tempo que ele leva para chegar a esse ponto, a tartaruga já terá percorrido outra pequena distância.

A repetição infinita : Esse processo se repete indefinidamente. Cada vez que Aquiles percorre a distância restante, a tartaruga já avançou mais um pouco, criando uma série infinita de segmentos de espaço e tempo.

A conclusão de Zenão : Como há infinitos segmentos a serem percorridos, Zenão argumenta que Aquiles jamais alcançaria a tartaruga, o que contraria o senso comum.

Resolução do paradoxo: A resolução do paradoxo de Zenão veio com o desenvolvimento da matemática, especialmente o conceito de cálculo e a soma de séries infinitas. Embora haja uma infinidade de pontos a serem percorridos, a soma dessas infinitas parcelas pode resultar num valor finito, como a própria realização do movimento. Isso demonstra que a divisão infinita do espaço e do tempo não impede o alcance de um ponto ou o percurso de uma distância.

São quatro paradoxos, mas vamos nos restringir apenas a dois deles. O primeiro, conhecido como paradoxo da dicotomia, procura interpretar o movimento de um ponto A a um ponto B como uma seqüência infinita de movimentos: antes de se chegar ao ponto B é preciso chegar ao ponto C tal que AC = CB (figura 1); mas, antes de se chegar a C, é preciso chegar ao ponto D tal que AD = DC; e assim por diante, indefinidamente.

A conclusão de Zenão é que o movimento é impossível, pois sequer se iniciará.

O paradoxo de Aquiles refere-se a uma corrida entre o rápido Aquiles e a morosa tartaruga, esta se posicionando na frente (digamos, no ponto A₁ da figura 3, enquanto Aquiles se posiciona em A). O paradoxo está na conclusão de que Aquiles nunca alcançará a tartaruga. De fato, segundo o raciocínio de Zenão, quando Aquiles chegar ao ponto A₁, a tartaruga já estará em A₂; e quando Aquiles chegar ao ponto A₂, a tartaruga já estará em A₃; e assim por diante, indefinidamente, um processo que não termina.

Zenão e sua época

Zenão viveu no século V a.C., era discípulo de Parmênides, que ensinava que só o ser imutável é real, portanto, é na imutabilidade do ser que se encontra a realidade e se fundamenta o conhecimento. Essas idéias estavam em direta oposição às de Heráclito, para quem a realidade fundamental está no movimento.

Heráclito ensinava que tudo no universo está em permanente mudança, toda a realidade é um “vir-a-ser” contínuo. Ao que parece, Zenão quis evidenciar, com seus paradoxos, a fragilidade dessa idéia de Heráclito, apontando para as contradições a que leva a própria noção de movimento. Até hoje não se sabe ao certo se é isso mesmo que tencionava Zenão, ou se ele tinha outros objetivos em vista, pois não dispomos de nenhum escrito seu, nem sabemos se ele deixou alguma coisa escrita.

Seus paradoxos são relatados por Aristóteles, cujo objetivo era refutar Zenão. Portanto, Aristóteles pode não ter contado toda a história, ou, pelo menos, não ter retratado todas as intenções de Zenão. O que Aristóteles diz – e que costuma ser repetido desde então – é que Zenão queria, com seus paradoxos, demonstrar a impossibilidade do movimento.

Mas seria ingênuo acreditar que ele duvidasse de uma realidade tão evidente como o movimento. Mais provável, portanto, é que Zenão quisesse, como dissemos, mostrar a fragilidade das idéias de Heráclito; ou apontar as deficiências dos conceitos formulados e do próprio raciocínio, isto é, as deficiências das bases racionais do conhecimento.

Os Paradoxos

Os dois paradoxos descritos anteriormente são essencialmente iguais: o primeiro deles decompõe o movimento numa seqüência infinita de percursos cada vez menores “para trás”, nos trechos CB, DC, etc.; ao passo que o segundo decompõe o movimento numa seqüência infinita de percursos cada vez menores “para a frente”, nos trechos AA₁, A₁A₂, etc. Assim, a dificuldade é a mesma nos dois casos.

Suponhamos que, partindo de um ponto A, Aquiles alcance a tartaruga ao final de duas horas num ponto B. Assim contemplado, o movimento se apresenta como realizado por inteiro, como fenômeno completo e acabado. Outro modo é contemplar o movimento realizado por etapas, assim: durante a primeira hora Aquiles percorre o trecho AA₁, sendo A₁ o ponto médio entre A e B (figura 3); durante a meia hora seguinte ele percorre o trecho A₁A₂, sendo A₂ o ponto médio entre A₁ e B; durante mais 15 minutos ele percorre o trecho A₂A₃, sendo A₃ o ponto médio entre A₂ e B; e assim por diante.

Em todos esses percursos ele estará sempre atrás da tartaruga. Poderá Aquiles alcançar a tartaruga no ponto B? Há outras maneiras de interpretar o movimento de Aquiles até alcançar a tartaruga, mediante uma infinidade de movimentos sucessivos; mas basta essa última interpretação para a análise que faremos em seguida.

O paradoxo e a soma infinita

Em geral, as muitas tentativas que têm sido feitas ao longo dos séculos no sentido de resolver o paradoxo consistem simplesmente em aceitar a soma infinita dos percursos como resultando no percurso total, que dura duas horas. Ora, isso não alcança o âmago da questão, apenas transfere a dificuldade para o domínio das séries infinitas, pois se reduz a afirmar que

Mas, somar números, uns após outros, sucessivamente, é uma idéia concebida para uma quantidade finita de números. Não se adapta ao caso de uma infinidade de parcelas, pois, por mais que somemos, sempre haverá parcelas a somar, e o processo de somas sucessivas não termina. E parece ser precisamente essa a dificuldade que Zenão queria apontar.

Os matemáticos têm consciência das dificuldades com as séries infinitas há mais de dois milênios. A primeira soma infinita que aparece na Matemática ocorre num trabalho de Arquimedes, onde ele calcula a área de um segmento de parábola; e faz isso através de um processo finito, justamente para evitar envolvimento com uma soma infinita, como no paradoxo de Aquiles.

A soma infinita é o limite de uma soma finita , quando fazemos n tender a infinito. Mas o que significa isso precisamente? A definição de limite, adotada no início do século XIX para fundamentar a Análise Matemática, é feita de maneira a evitar um envolvimento direto com a soma de uma infinidade de parcelas.

donte a equação S = 1 – S, que nos dá S = 1/2.

Como decidir então? Afinal, S é zero, 1 ou 1/2?

Em vista dessas considerações, para comparar o movimento da figura 3 a uma soma infinita, temos de decompô-lo na seqüência AA₁, A₁A₂, A₂A₃, … ,Aₙ₋₁Aₙ, AₙB, pois é essa seqüência, à execução do último trecho AₙB, que corresponde à soma parcial Sₙ. Aí a dificuldade desaparece por completo, não importa quão grande tomemos n, pois estaremos evitando o infinito, exatamente como se faz no tratamento das somas infinitas.

Mas esse expediente, como se vê, desfigura completamente o paradoxo, e é justamente por isso que não há como resolvê-lo em termos de séries infinitas.

Hilbert e o infinito

Vale lembrar aqui um artigo sobre o infinito, de um dos mais eminentes matemáticos do século XX, David Hilbert (1962–1943). A partir de 1917, ele se dedicou a investigar os fundamentos da Matemática e em 1925 pronunciou uma conferência que deixou escrita e ficou famosa, na qual aborda a natureza do infinito. Para nós aqui interessa lembrar que nessa conferência Hilbert insiste, de maneira bastante convincente, que o infinito não existe na explicação matemática de fenômenos físicos, certamente estamos procedendo a uma idealização, que necessariamente, passa a ser um modelo que não mais corresponde exatamente à realidade física. É precisamente isso o que acontece quando construímos modelos matemáticos para movimentos físicos.

Por exemplo, quando dizemos que uma bola de bilhar está animada de um movimento com velocidade uniforme de 3 m/s e escrevemos a equação horária do movimento s = 3t (s representando o espaço percorrido em metros e t o tempo em segundos), estamos, tacitamente, representando a bola por um de seus pontos, digamos, o centro de massa. A partir desse momento, passamos a contemplar o modelo matemático, deixando para trás o fenômeno físico! O movimento “matemático”, regido pela equação , é contínuo, isto é, nele o ponto se desloca ao longo de uma reta, passando por todos os (infinitos) pontos que se situam entre a posição inicial do móvel e a posição final.

Completamente outra é a situação do movimento físico. Primeiro que um corpo físico qualquer – seja uma bola de bilhar, uma bola de gude, um grão de areia, ou mesmo Aquiles ou uma tartaruga – é sempre uma coleção finita de partículas. Quando esse corpo está em movimento, cada uma de suas partículas executa um movimento particular. Mesmo quando procuramos simplificar, falando em corpo rígido, centro de massa, partícula ou elemento material, já estamos idealizando, portanto, saindo do domínio estritamente físico… Na verdade, estamos tão acostumados a descrever o movimento por meios matemáticos, que acabamos identificando o fenômeno físico “movimento” com seu “retrato matemático”.

As coisas que se movem no mundo físico são partículas, não pontos matemáticos. E não há como, rigorosamente, identificar a trajetória de um próton ou um elétron, por exemplo, com uma reta ou curva contínua. É um equívoco imaginar que o móvel físico possa passar por uma infinidade de posições mesmo porque, como nos ensina Hilbert, o infinito não existe no mundo físico.

A racionalização do conhecimento

A fundamentação racional do conhecimento se originou com Tales, no século VI a.C.; e adquiriu grande impulso com Pitágoras, que teve a genial idéia de que todos os fenômenos se fundamentam no número e podem ser explicadas em termos puramente numéricos. No fundo, o que Pitágoras propõe é a possibilidade da matematização do universo, coisa que só vem se tornando realidade – e com muito sucesso, diga-se de passagem – nos últimos 400 anos, desde os tempos de Galileu, Kepler e Newton.

Com o surgimento da fundamentação racional do conhecimento na Grécia antiga, vários sábios passam a se ocupar do exercício da racionalidade na análise das idéias então em voga. São eles os sofistas, que eram verdadeiros “disseminadores do conhecimento”, que até então houvera sido cultivado em sociedades mais ou menos fechadas, como a dos pitagóricos. Dentre os sofistas havia os menos escrupulosos – e até charlatães, como acontece mesmo nos dias de hoje, em todas as profissões – e aqueles que usavam de suas habilidades até mesmo para exibição e divertimento, como bem retrata a história seguinte:

Dois personagens, Protágoras e Euatlus, chegaram a um acordo, segundo o qual Protágoras concordava em ensinar Euatlus a prática do Direito por um certo preço, que deveria ser pago em duas vezes, a metade durante o curso e a outra metade quando Euatlus começasse a praticar a profissão e ganhasse seu primeiro caso num tribunal. Acontece que Euatlus, após terminar o curso, nunca iniciava sua prática. Protágoras foi ficando impaciente, cobrava e recebia sempre a mesma resposta de Euatlus:

— “pelo nosso trato, não tenho de lhe pagar ainda, pois não ganhei meu primeiro caso perante um tribunal”.

Com sua paciência esgotada, Protágoras decidiu processar Euatlus para conseguir receber o que ele lhe devia. Mas antes mesma da formalização do processo, numa última tentativa, Protágoras procurou Euatlus e o alertou:

— “em qualquer hipótese você vai ter de me pagar, pois, se o tribunal decidir a meu favor, você terá de obedecer a essa decisão e me pagar; e, se o tribunal decidir a seu favor, aí você terá ganho seu primeiro caso como advogado e, de acordo com nosso trato, terá de me pagar. Portanto, melhor me pagar antes que eu recorra à justiça”.

— “Você está enganado”, respondeu Euatlus a Protágoras, “pois, se o tribunal decidir a meu favor, obedecerei a tal decisão e não lhe pagarei; e, se decidir a seu favor, aí ainda não terei ganho meu primeiro caso, portanto, de acordo com nosso trato, não terei de lhe pagar!”

Zenão, ao que parece, era filósofo sofista (dos sofistas sérios, é claro!), um crítico dos instrumentos que então se criavam para o estudo racional dos fenômenos. Assim, já naquela época se questionavam as bases do conhecimento, pondo em evidência as próprias limitações da racionalidade. Decerto que já se faziam perguntas mais ou menos deste tipo: o intelecto humano é realmente capaz de “penetrar” os fenômenos, de desvendar os segredos da Natureza? Até que ponto o homem realmente adquire o conhecimento? Será esse conhecimento uma revelação completa dos fenômenos? Ou tem apenas um caráter relativo e limitado? Ou será mesmo totalmente ilusório? Questões como essas são tão atuais nos dias de hoje como teriam sido há mais de dois milênios, nos tempos de Sócrates, Platão, Aristóteles, e mesmo de seus predecessores.

É interessante notar que, com o progresso científico, principalmente a partir do século XVIII, sobretudo no terreno da Física e da Matemática neste nosso século XX, as bases do conhecimento nunca se revelaram tão frágeis. Os físicos têm hoje plena consciência de que suas teorias – que vivem numa permanente busca de conciliação e consistência – nada mais são do que instrumentos frágeis de interpretação da realidade, nunca um desvendamento completo dessa realidade.

Dissemos que é provável que Zenão estivesse procurando, com seus paradoxos, evidenciar as deficiências das bases racionais do conhecimento. A ser isso verdade, poderíamos então dizer que Zenão seria muito atual em nossos dias! Os matemáticos, por seu turno, depois de perseguirem, por séculos, a fundamentação última de suas teorias, sabem hoje que isso é impossível. E um dos elementos centrais das dificuldades de se atingir tal objetivo é o infinito, do mesmo modo que o infinito é a pedra de tropeço dos paradoxos de Zenão.

Fonte: IA e Revista do Professor de Matemática, n. 39 e Análise Matemática (Geraldo Ávila, 2006).


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